quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A sina de um raizeiro

... Pois estas são apenas algumas descobertas.
Que encontramos na vida secreta das plantas
(Stevie Wonder).

Daniel, um senhor de 70 anos, retira as favas; uma, duas, três (...) segue o ritual debulhando todas em uma bacia de alumínio. Como colcha de retalhos enroscada no arame farpado, às favas contorna e dá vida verde a casa do raizeiro. O legume servirá de alimento não só para ele, mas para toda a vizinhança.

Enquanto me aproximo, a cena segue germinando em minha pupila. Sinto um aumento repentino nos batimentos do meu coração. Emoção! Afinal é chegada à hora de compreender a vida deste homem que cultiva: ervas, folhas, raízes (...). Que dos frutos da natureza faz ressurgir a vida.

A casa foi construída nos fundos para dar frente às plantas. Donas do pedaço, elas são diversas: erva-cidreira, pinhão manso, hortelã grosso e fino, arruda (...). Daniel, sempre muito simpático, desta vez me repreende pelos trinta minutos de atraso. “Eh, doninha, dá 11 horas, mas, não dá sete heim?” Logo abre o sorriso e me convida para conhecer melhor sua casa.

O acesso é um pouco íngreme. Para não arriscar um tombo logo na entrada, firmo bem os pés no chão de terra batida. Enquanto isso, Daniel vai me contando que se considera um homem do mato, pois seus bisavôs eram índios. Diz também que cresceu plantando e que hoje sua vida é curar pessoas, claro “primeiro com a benção de Deus e segundo com o uso das plantas”, conclui.

Aguardo-o sentada em um tamborete na varanda e fico observando seu animal de estimação chamado amorzinho, um beija-flor que passeia com muita intimidade por todo o espaço. Daniel chega segurando duas garrafas pet com água e as colocam na cesta de sua bicicleta. Ajusta o cinto na calça de brim marrom e coloca o chapéu de couro, estilo cangaceiro. Traz a capanga e o facão, seus equipamentos de trabalho. Faz o sinal da cruz e diz: “Estou pronto, vamos?”.

Pego minha bicicleta, ele a dele, e seguimos viagem para a fonte de remédios naturais do cerrado. Na traseira um saco de estopa servirá para guardar a matéria-prima. Uma placa de metal com algumas informações e, claro, seu endereço fixado no centro da condução serve de ajuda na divulgação dos seus trabalhos. Um detalhe chama a atenção: o nome da rua é Floresta. Coincidência ou não, parece até uma homenagem feita pelo destino ao morador ilustre.

Logo na primeira subida de uma rua, ele desce e empurra a bicicleta. Depois seguimos para a saída norte de Porangatu (cidade localizada a 420 km de Goiânia, capital de Goiás). No último setor da cidade o Galiléia, um senhor de meia idade sentado no meio-fio da rua estende a mão em sinal de cumprimento para Daniel.

Depois de alguns metros, avistamos alguns homens reciclando papelões. A cada nova pedalada nos aproximamos da paisagem rural cheia de pasto, gado, peões, cavalos e caminhonetes transportando galões de leite. Até os sons se alteram agora; o ritmo a ecoar são dos pássaros que nos acompanham. E, o ar? A sensação é de que ele está cada vez mais puro.

Animado e acostumado com o trajeto, Daniel segue me guiando. Passados dez quilômetros, entramos à esquerda da fazenda São Francisco. O céu azul anil e a beleza do cerrado enchem de alegria os olhos do raizeiro. Enquanto abre a primeira de muitas porteiras me explica que é bom deixar do jeito que encontra para não dar motivos para nenhum fazendeiro reclamar. “Afinal, como diz o ditado, sou eu mesmo que preciso das plantas”, complementa.

Seguindo seus passos, escondo a minha bicicleta junto à dele em uma moita alta de capim. Um boiadeiro passa entre nós conduzindo o gado. O medo que tenho desses animais me faz ficar paralisada. O raizeiro começa a rir e emenda: “Como você é medrosa? Larga de ser boba. Eles não fazem nada, são mansinhos. Eles que tem medo da gente”.

Continuo os passos, porém tentando disfarçar o medo. Adentramos a mata, local que ele conhece como a palma da mão. Aponta para uma árvore:

- Está vendo esta; é avenca, boa para dor no corpo, sequidão de garganta e reumatismo. Caminha um pouco mais em direção a outra árvore.

- É sete-sangria, esta, e ela serve pra vários tipos de doença, nervosismo, depurativo para o sangue e para pressão alta. Tem muita gente que conhece por outros nomes como peidorreira ou sangue-de-cristo.

A mata vai ficando cada vez mais fechada. Empolgado, ele segue me mostrando uma infinidade de plantas medicinais; congonha-de-bugre, alecrim-do-campo, jurubeba, jatobá, vergateiga, pau-santo (…). Verdadeira aula sobre medicina alternativa, pois segue me explicando para o que servem cada uma das ervas ou raízes. “Essa aqui é melhor fazer uso do chá!”, continua.

Daniel apresenta seu habitat. Fala que para conseguir achar as plantas busca sempre a orientação do sol. Pega no caule lascado de uma das árvores e explica que foi um sinal feito por ele para lembrar que no local existem raízes difíceis de ser encontradas. Atravessamos para o outro lado em busca de mais novidades.

- Nossa! Não posso esquecer de pegar para você a casca da curriola, que é o melhor remédio que conheço para curar diabetes. Fala para sua mãe deixar de molho na água e tomar todos os dias.

Próximo da árvore ele me explica que nunca se deve cortar o caule do lado que o sol nasce porque assim a doença aumenta. O correto é cortar do lado que se põe. Assim a doença vai com o sol. No ponto mais alto do cerrado ele fecha os olhos; inspira forte o ar, solta devagar e faz uma declaração de amor a natureza.

- Tão bom esse vento livre. É aqui que sinto o corpo saudoso, alegre (…). O que mais gosto nessa vida é navegar pelo mato, conhecer a natureza! Caduco, da roça que nem eu, criado dentro do serviço pesado, na mata e nos campos. Por isso, quando estou aqui, esqueço de tudo, não sinto fome e nem sede. Aquele que não ama a natureza é sinal que não ama Deus.

MONÓLOGO DO NASCIMENTO

“Meu nome é Daniel da Silva Alvarenga. Nasci dia 28 de 1938. Sou do signo de Aquário, goiano da cidade de Amaruleite. Mas cresci em Cavalcante, (lugar próximo aos Kalugas, uma das maiores comunidade de remanescentes de escravos do Brasil).

Eu vou falar a verdade, lá não é bonito não. Quem me criou foi minha avó Aurora, meu padrinho Zeca e minha tia Joaquina. Com oito anos até cheguei a frequentar a escola. Foi por pouco tempo, pois o meu padrinho me tirou. Ele sempre me disse que homem que é homem tem é que trabalhar, estudar para quê? Nessa época nem tive como fazer nada, só obedecer.

Eu e minha tia não nos dávamos muito bem. Por que ela não me dava respeito, mas queria que eu a respeitasse. Quando eu era pequeno ela me bateu muitas vezes; mas com o passar dos anos fui criando força e ela não conseguia mais me segurar.

No ano de 1956 minha avó morreu. Aí não queria mais ficar quieto, descobri que estavam construindo Brasília e fiquei louco para ir para lá. Consegui uma carona com o caminhoneiro Valdir Rodrigues em um dia muito chuvoso e segui dando nova rota a minha vida.

Segui só com a roupa do corpo. Atoleiros e noites mal dormidas até a região de Chapada dos Veadeiros. Enquanto o caminhão passava por uma revisão na oficina eu aproveitei para passear pela cidade; logo arrumei uma namoradinha e quando voltei. Para minha surpresa Valdir já tinha seguido viagem.

Depois peguei carona até Anápolis e acabei ficando na cidade. Trabalhei como doceiro, vendia dois tabuleiros de doces em troca de um prato de comida. Nas andanças a gente sofre mais aprende muito. Só aprendi a ler e a escrever graças ao trecho. Quem me ensinou foi um professor aposentado, Antônio Botelho para quem trabalhei como peão da sua fazenda.

Na nova capital do país trabalhei muito tempo tirando madeira de dentro dos córregos, com a água praticamente no pescoço. O material serviria para a construção de barracões. Nessa brincadeira, logo percebi que isso não iria dar futuro para mim aí resolvi ir para Belo Horizonte. Eu não tinha cabeça não, ficava um pouco em um lugar depois em outro, sempre na beira da estrada, passando fome, sede, mais ia continuando minha vida”.

AGEMIRO E DOMINGAS

Anos a fio, o maior desejo de Daniel era conhecer os pais. Nem que fosse só por um segundo. Nem que fosse só para a vista alcançar e depois largar. Ele queria guardar na memória a imagem do amor personificado de quem os gerou. E esse desejo doía como um martelar na sua alma, dia e noite.

Quando começa a falar, a voz logo treme. O olhar inunda! Daniel diz que quem conheceu primeiro foi o pai, Agemiro.

- Já tinha o rumo de onde ele estava. Minha avó disse que era de Amaruleite.

Ao se aproximar da casa que acreditava ser a do pai, avistou um homem conversando com um rapaz, ambos sentados na mureta do alpendre. “Meu pai sempre foi bom de prosa”, diz sorridente.

Realmente não era engano, o mesmo homem de camisa azul e calça tipo faroeste que estava no alpendre era realmente o seu pai. Envergonhado, Daniel se aproxima e pede a benção. Depois de alguns meses morando com o pai segue em busca da mãe.

Domingas morava a 36 quilômetros de Porangatu em uma fazenda chamada Capivara. No dia do encontro ela estava sentada descascando mandioca para fazer farinha. A emoção foi grande para os dois.

- Bom dia!
- Quem é o senhor?
- Dona eu vim procurar serviço. A senhora me arruma?
- Mas de onde você vem?

Daniel, em prantos, não aguenta. Ajoelha aos pés da mãe pede a benção e suplica para ela parar de chorar, pois o seu filho estava lá.

AUTODIDATA NO ESTUDO

Nos anos que conviveu com a mãe Domingas, Daniel começou a frequentar a escola das benzeduras e conhecer o mundo das raízes. Seu padrasto Joaquim Teles era o mais famoso raizeiro da região. Tempo que era Deus no céu e ele na terra. Nessa época, raizeiro era homem de prestígio, como diz Daniel. Até porque atendimento médico era como procurar agulha no palheiro. No seu novo lar, sua rotina era conviver com um entra-e-sai de gente buscando a cura de suas doenças. Só que nessa época, ele tinha apenas 18 anos e nem dava tanta bola para isso, confessa.

- Como não estava trabalhando, saia para o mato com meu padrasto. Toda vez a mesma coisa, essa planta é para isso, essa para aquilo. Ele ia me passando as lições.

Daniel conta que o padrasto curou muita gente. Teve uma moça que tinha uma doença no nariz que parecia câncer; tomou remédio feito por ele por seis meses e ficou curada. Além de remédios, ele benzia as pessoas. Um dia o padrasto de Daniel foi benzer um rapaz e fez uma premonição: “Ele disse que o moço iria morrer com 18 anos e o pior é que o rapaz bateu as botas mesmo. O velho sabia!”

Em 1970, Daniel foi para o Pará. Lá, pegou malária e conviveu com muitos doentes. Mesmo assim, não trabalhava ainda com raizadas e sim fazendo cerca de arame nas fazendas. A vida seguia lhe pregando peças. Conhecer Raimundo foi uma delas. Outro raizeiro que, quando ia buscar raízes, sempre o chamava para ir junto. Iam pra Macaúba, cidade depois de Marabá, e passavam até seis dias andando pelo mato. No final das contas, foram mais de quatro anos de convivência.

É até engraçado a vida. Parece que Deus mostra pra gente aonde é que tá a raiz. Eu não conhecia os campos daquela região e como é que eu arrumava o remédio certo?, pergunta-se. Nesse período, Daniel começou a estudar mais sobre o poder da cura através dos remédios naturais, esforço que lhe garantiu o conhecimento sobre certos tipos de doenças que não sabia que existia.

“EU VIA A IMAGEM DELE”

Bater as botas, como diz Daniel, por várias vezes ele quase conseguiu. Até nem sabe o porquê recebe tantas bênçãos de Deus. Começa a enumerar as vezes em que esteve com o pé mais para lá do que para cá. Com o indicador e o dedo médio mostra a quantidade de vezes que foi picado por cobras venenosas. E também: que quase morreu afogado por cinco vezes e por três em derrubadas de árvores para fazer pasto para gado. “São Jorge é meu protetor; uma vez ele me livrou de uma (…). No Pará um homem quase me mata a facadas, sabe por quê? Ciúmes de uma mulher da vida”, conclui.

Mas o pior mesmo foi o que aconteceu em uma manhã de janeiro, em 1970. Agonia doida por causa de Antônia, sua nova paixão, que ia buscar para morar com ele, logo depois que terminasse os serviços que tinha na fazenda onde trabalhava.

A empolgação era tanta que fez Daniel correr mais rápido que os ponteiros do relógio. Antes mesmo do previsto pegou sua bicicleta e saiu alegre, cantarolando. Quando foi atravessar uma ponte, avistou uma rama caída no meio da rua. Tentou desviar o obstáculo, mas um caminhão que vinha atrás não fez o mesmo. Uma enorme poça de sangue brotou no chão.

Dizem que me levaram para o hospital municipal de Tucuruí. Lá fiquei por oito dias sem ver o mundo. Não sabia quando era dia nem quando era noite. Nesse momento Daniel segura a minha mão e leva até a sua cabeça, coloca-a na parte superior do lado direito. Sinto o corte profundo já cicatrizado.

Enquanto ia terminando de me mostrar a cicatriz chegam alguns visitantes; uma mulher morena, um homem alto e uma criança. A criança corre para um tambor enferrujado e pega uma das colheres de pau expostas. O artesanato? É feito pelo raizeiro nas horas vagas.

As visitas são para a nova inquilina. Ela sai de um dos cômodos da casa com os dois filhos um a tira-colo e o outro no ventre. Despede-se de Daniel:

- Tchau. Ah, se o senhor quiser assistir televisão pode pegar lá.
- Você volta hoje? – pergunta Daniel.
- Só amanhã.

- Se você não voltar mando a polícia atrás, viu? Hehehe.

Dirige-se para mim e retoma o assunto do acidente. “O médico passou um remédio controlado, chamado Hidrontal. Eu tinha que tomar ele por uns três anos. Mas, vou falar a verdade, cheguei a tomar esse remédio, só uns dois meses. Sabe, um monte de coisas aconteceram comigo; fiquei sem emprego, sem mulher e sem dinheiro.”

Daniel foi a uma farmácia de Marabá comprar o remédio. Lá encontrou com uma velhinha com o mesmo medicamento na mão. Ela virou para ele e disse que o tomava há doze anos e no dia que faltava ficava louca. Isso assustou o raizeiro de tal forma que foi até o estopim para sua decisão. “Eu vou tomar esse remédio é nuuunca mais!”

Saiu desconsolado, pensando em como solucionar o problema. Descobriu que o jeito era ir atrás de um velho que fazia garrafadas (remédios naturais). Tomou e depois de quatro meses já sentia seu corpo melhor. Terminadas as garrafadas foi atrás da melhor raizeira de Marabá.

- Logo que cheguei lá, ela disse que eu estava precisando muito de um benzimento. Pediu para eu fechar os olhos. Enquanto ela me benzia, eu ia vendo a imagem de Jesus Cristo. Terminada a reza ela perguntou o que eu tinha visto. Sorriu e disse que eu iria ficar bom logo.

SEM UM TOSTÃO, MAS COM SAÚDE

Dia 24 de março de 1993, Daniel volta para Porangatu (GO). Arruma emprego de guarda em uma loja de materiais de construção e reconstrói sua vida. O preço? Várias parcelas a perder de vista para ter a tão sonhada casa própria.

Logo que chegou nem imaginava que em pouco tempo muitas pessoas do local iriam depender dele para a cura de doenças. Tudo começou, quando uma mulher com problemas de infecções no útero foi atrás de Balduíno, irmão de Daniel, para comprar garrafadas. Tranquilo, sentado no sofá de sua casa, Balduíno me conta:

- Meu pai foi o raizeiro, Joaquim Teles, mas não quis nem saber desse ramo. Agora, Daniel, não. Desde moço, não podia ver uma pessoa falando de doença, que ele logo já sabia que tipo de raiz curava. Ainda ficava comparando qual planta fazia mais efeito. Então, quando essa mulher veio aqui, indiquei Daniel.

- Por que as pessoas buscam os raizeiros para a cura de doenças?

- Amanda, eu acho que a pessoa cai num desespero tão grande. Muitas vezes o médico não está resolvendo mais o problema e por isso ele vai procurar outras correntes.

Depois da indicação, Daniel teve que fazer a garrafada para a mulher. Na composição, sucupira, angélica, pé de perdiz, algodãozinho, cainca, jequitibá, mama cadela, sete sangria e generosidade. Só que com a cura desta doença o povo nunca mais o deixou sossegado. Sua rotina até hoje é sair para o mato, fazer remédios e curar pessoas.

- Eu quase não faço mais benzeduras. Pois é difícil um aparecer aqui pedindo para eu benzer. Sabe, para dar certo é preciso que as pessoas tenham fé! Acho que o povo tem mais fé no que vê mesmo, por isso, vem mais atrás de garrafadas e de raízes.

Interrompo a inquilina Lidiane, que prestava atenção na conversa enquanto assistia a uma novela.

- Já viu seu Daniel benzendo? Me conta como foi.

- Vi só uma vez. Ah, para mim é natural, pois fui criada vendo isso. Fui benzida várias vezes. Para dar certo, a pessoa tem que ter fé mesmo como ele disse.

- E sobre as garrafadas?

- Tem muita gente que vem aqui que já gastou muito dinheiro com remédios de farmácia e às vezes uma simples garrafada a pessoa consegue a cura. Eu já tomei remédio feito por ele. Meus filhos já tomaram depurativo para o sangue e a gente curou.

Antes do crepúsculo, proponho que Daniel me leve à casa de pelo menos um dos seus clientes.

Chegamos, é aqui!”, disse o raizeiro. Lá está o senhor de chinelas havaianas, bermuda e camisa listrada assistindo o dia passar debaixo de uma mangueira. João Ribeiro, aposentado de 80 anos, toma uma garrafada para aliviar tonturas e fortalecer os músculos.

- Ah, fia, isso é coisa que aparece por causa da idade mesmo. Mas eu estava rui, viu! Nem tava conseguindo andar direito. Mas tô melhorando, até já andei de bicicleta. Acho que Deus quê é que eu fique mais um pouco aqui na terra.

Despeço-me de todos após mais algumas conversas. O raizeiro olha para mim e pergunta se eu não quero conhecer o relojoeiro Pedro.

- Essa semana fui levar um punhado de avenca para ele aliviar as dores da coluna – completa.

- Vamos sim! – Respondo.

Cinco minutos pedalando. Chegamos. O estabelecimento fica em frente à rodoviária da pacata Porangatu. Pedro, amistosamente, vai logo me contando sem delongas:

- Já tomei tanto trem, para baixar pressão, para melhorar coluna. Lá em casa todo mundo já tomou remédios do Daniel. Meu filho Edson Carlos trabalha até em farmácia, mas já tomou garrafadas para acabar com furúnculos.

- Por que esse hábito de toda a família tomar remédios naturais? (pergunto)

- Ah, remédio da farmácia serve, mas é um preço absurdo. Por isso, na minha casa a gente toma mais esses remédios do mato.

Daniel despede-se e segue a sua sina. Antes, passa o último recado: “A pessoa que não tem saúde, não tem nada. Agora, com saúde e sem um tostão no bolso, tem toda a coisa na vida. A felicidade é a saúde!”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

É preciso romper fronteiras

Há tempos o conceito de analfabeto era não saber ler e escrever. Hoje, o entendimento sobre esta palavra é outro. Para ser considerado analfabeto basta não saber, por exemplo: manusear um celular. Isso mesmo, as pessoas que não conseguem dar a devida funcionalidade aos instrumentos tecnológicos podem ser tachadas de “analfos”.

Ser um analfabeto funcional é não deter conhecimentos específicos em determinada área. Como um balconista de uma farmácia que não sabe diferenciar um analgésico de um antialérgico. Além disso, analfabeto funcional na sociedade em que vivemos é não exercer a cidadania ou mesmo, ter o senso crítico para escolher candidatos em uma eleição. Não exercer de maneira coerente o direito de votar.

Nos dois pontos abordados; não ter conhecimentos específicos como também não deter senso crítico pode ser o resultado de uma histórica dominação de poder feita por latifundiários aos proletariados. Afinal, não é interessante para eles deixar o povo saber distinguir “alho de bugalhos”.

Existe uma solução? Claro! E ela está nos livros. Na busca incessante do conhecimento. Aí sim a população vai conseguir romper as fronteiras que cercam e dividem as pessoas.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Diferenças de atitudes

Acabou o tempo em que namorar significava atos singelos. Como a menina debruçada na janela olhando de rabo de olho para o pretendente. Ele do outro lado da rua todo galanteador ofertava uma margarida apanhada do jardim mais próximo.

Ou em outras situações onde um sorriso maroto refletia a aprovação de uma jovem. O garoto todo tímido ficava o restante do dia feliz a cantarolar. Depois de um mês; o pedido de namoro acontecia. Claro cercado de testemunhas.

O pai carrancudo logo dizia:

- Minha filha é uma menina direita, viu! Nada de travessuras com ela. Se quiser namorá-la vai ter que ser do meu jeito.
- Lógico que ele concordava com tudo; afinal não tinha outra escolha.

É! As pessoas mudaram, os costumes são outros...

Hoje namorar ou ficar, enrolar ou teclar. Enfim, é tudo muito complicado, nem os amantes sabem ao certo o que significa o que eles vivenciam. Imaginem os pais desta geração pós-moderna?

A jovem sai para a balada. Antes, se despede do pai falando que vai azarar legal. O pai pergunta para a filha:

- Minha fiiiilha, já viu se você tem camisinha na bolsa? Afinal, ele quer o melhor para ela e o jeito é se adaptar as novas circunstâncias.

Rapazes então, não conseguem contabilizar o número de namoradas, paqueras e ficantes. Eles ainda têm uma grande aliada, a tal internet. Através da tecnologia conhecem e desconhecem mulheres como num jogo de bilhar.

Depois que inventaram o Facebook, Orkut, MSN... a oferta está realmente cada vez maior que a procura.

O pior é a invasão de privacidade, onde as mais ciumentas ficam tardes inteiras bisbilhotando os scraps deixados por ex-namoradas ou será atuais?

Situações que normalmente o garoto logo explica:
-Ah, isso não passa de recados insignificantes...

Será? Se em décadas atrás; de uma piscadela na janela era possível brotar um amor. Porque não é possível surgir novos relacionamentos conjugais, após um “hehehe” (sorriso) teclado?