domingo, 5 de junho de 2011

Saudades de um jovem sonhador


Chego ao meu destino. Tomo fôlego e bato palmas. Em minha direção caminha devagar uma jovem que aparenta 18 anos, de bermuda jeans curta, blusinha clara e olhar cabisbaixo. Pergunto a ela se a mãe do Mayêdo está. Ela responde que sim e me chama para entrar. Apresento-me, ela também e sorrimos juntas; pois temos o mesmo nome: Amanda.

Antes de entrar para a sala de visitas conheço João Gabriel. Ele vem correndo com os pezinhos descalços. Pára e olha todo sorridente; nem a chupeta azul na boca é capaz de esconder sua simpatia. De imediato percebo que é o filho do Mayêdo, pois herdara uma das principais características do pai, o sorriso.

Sento no sofá e aguardo Dona Têcla. Enquanto isso, João Gabriel ronda curioso, aproxima mais e tenta tirar as pedrinhas verdes da minha sandália. O único momento que fica meio retraído é quando ganha de mim um beijo no rosto. Afasta-se, fica vermelho e esconde-se nos braços da mãe.

Amanda teve João Gabriel, há 1 ano e 3 meses. Quando perguntei por quanto tempo namorou Mayêdo, ela foi categórica: “a gente nunca namorou!” O filho foi concebido entre os 4 dias de rodeio na cidade de Novo Planalto (época que o conheceu). A jovem mãe confessou-me que sonhava casar com o Mayêdo e constituir uma família.

Boa tarde! Dona Têcla cumprimenta-me amistosamente.

Como está essa força? Pergunto dando-lhe um abraço.

Vamos tentando levar a vida, minha filha. A saudade é demais. Mesmo a gente tendo a certeza de que a morte é inevitável, não é fácil. Quando ela bate na porta da gente é difícil encará-la de frente. É doído demais. Mas, se Deus quis assim é assim que tenho que aceitar.

O descanso eterno de Mayêdo Araújo Fagundes (23 anos), filho de Dona Têcla, aconteceu no dia 05 de maio, por volta das 9hs da manhã. Ele vinha conduzindo um palio pela BR 153, no perímetro próximo a cidade de Mara Rosa quando tentou uma ultrapassagem e bateu de frente com uma escánia que vinha no sentido contrário. No veículo; o tio dele, Paulo Fagundes, estava no banco da frente como passageiro. Hoje ele está bem, se recuperando de uma fratura exposta que teve no braço esquerdo.

A viagem dos dois foi feita para uma cobertura jornalística em várias cidades da região norte pelo Gazeta Norte Sul. Só, que infelizmente resultou em uma tragédia. Fatalidade que não convém mais buscar culpados. Afinal, a própria família buscou o conforto na bíblia, mais precisamente no versículo 14 do livro de Jô.

“Todos somos fracos desde o nascimento; nossa vida é curta e muito agitada. O ser - humano é como uma flor que se abre e logo murcha; como uma sombra ele passa e desaparece. Nada somos então porque nos dá atenção e quem sou eu para que me leves ao tribunal, o ser - humano que é impuro nunca produz nada que seja puro. Tu já marcaste quantos meses e dia cada um vai viver; isso está resolvido e ninguém pode mudar (...)”

Ananda, irmã do Mayêdo foi quem buscou na bíblia essas palavras de alívio tanto para ela, quanto para a mãe. A relação dos dois irmãos, segundo Dona Têcla é uma lembrança que será eterna. “Era o meu maior presente ver a união dos dois. Ele tinha muito orgulho da irmã, só a chamava de minha neguinha”. Com os olhos marejados complementa: “É assim minha filha, Deus dá, mas ele também tira!”

A dor de quem perde um ente querido é imensa! Ananias, pai do Mayedo, tenta recompor a vida devagarzinho, até conseguiu uma licença de alguns dias da policia civil onde trabalha. Mas, os afazeres da roça não têm para quem deixar, por isso acorda cedo para cuidar do gado. Enquanto isso, Dona Têcla fica com o coração na mão. “Ele está muito ruim, ainda mais porque tem diabetes. Ele guarda muito o sentimento dentro dele”, completou.

Sobre os dois irmãos de Mayêdo, ambos formados em direito, a obrigação já os chamaram. Dhonatan está em Gurupi executando os serviços do IBGE e a Ananda comemora a aprovação na OAB e estuda para concursos.

O Mayêdo em casa sempre foi muito tranquilo, gostava de dormir e assistir televisão. Jovem, vaidoso e com um espírito alegre saia com freqüência e sempre estava rodeado de amigos. Ele era bastante comunicativo e gentil, principalmente, com as mulheres. Quando criança era travesso, mas a mãe afirma: “nunca foi de maltratar as professoras. Era diferente dos dois irmãos, pois não era tão estudioso e por isso, sempre levava umas bombinhas”, sorri.

“Ultimamente Mayêdo tinha mudado; dizia que ia dar bom exemplo para o filho e para a sociedade. Determinado, fez um curso de perícia ambiental em Brasília e estava fazendo o curso de gestão ambiental, em Porangatu” afirmou a mãe; logo em seguida soltou um suspiro.

Como colega de trabalho, mesmo convivendo por apenas 2 meses, posso assegurar que a alegria era a marca registrada do Mayêdo. Por incrível que pareça, a função dele era exatamente a de registrar. Fotos que vão ficar na memória e na história, onde a função ele exerceu de maneira brilhante, melhorando várias reportagens. A intenção; ele confessou um dia desses atrás “quero ajudar a melhorar a vida dessa gente pobre, sem saúde, sem saneamento básico...” A contribuição dele já foi dada!