quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Galega Preta


“Quem te vê chegar
Não imagina o que a Europa e a África juntas podem causar
Um tom de pele
Um tipo de cabelo
Tão diferentes, mas a combinar
Não dá pra saber,enfim
O Brasil é a mistura
Eu vou lhe chamar: galega preta, galega preta...”
(Tibles)


O sorriso inebriante de Núbia Dourado abre caminhos. A voz dela ecoa aos quatros cantos. Composições ritmadas que agitam os rincões do Norte. Músicas que trazem vida e alegria ao povo tocantinense. Essa é a “Galega preta” que nasceu na pacata cidade de Rio Sono, a 143 km de Palmas.

A pequenina Núbia ainda não tinha o Dourado no nome, tinha a atitude de uma menina de ouro que sonhava grande. O chamado para o universo da música surgiu nos recreios da escola. Ela adorava cantar para as amigas. Só que um dia, num evento cívico do colégio,a timidez gritou e não a deixou subir ao palco,esse lugar que hoje faz sentir um frio na barriga e a deixa tão feliz e iluminada.

“Descobri depois que o que eu mais gostava era o que eu mais tinha medo”, revela. Núbia Dourado passou por cima de todos os medos, preconceitos para cantar e, claro, encantar. A ribeirinha saiu em busca de oportunidades. Nos palcos da vida teve glórias, desafetos, lágrimas, alegrias e desapontamentos. “Encontrei muitas pessoas boas no caminho, mas também sofri decepções com outras”.

Para satisfazer o preocupado pai Antoniel Lustosa, se tornou publicitária em Palmas. Claro, que na época nem imaginava que seria ela mesma a profissional de sua própria carreira artística. E, não tinha como ser diferente, já no primeiro dia de aula o pedido da turma era: “Núbia dá uma canja aí!”

De canção em canção, hoje Núbia Dourado reconhece que foram os colegas da faculdade os seus maiores incentivadores. “Eles me ajudaram no projeto do CD e sempre me alertavam sobre festivais”, diz. O jeito foi mergulhar de cabeça e como diretora de cultura do DCE da ULBRA contribuiu com a organização do I Festival de Música Universitária em Palmas.

Em Sampa

Todos nós sabemos que o cantor se faz por influências musicais. E, para Núbia, não seria diferente. Ela cresceu ao lado de músicas regionais. Coladinha no sertanejo de raiz... “Minha avó dizia pra eu cantar Sandra de Sá”. Sábia essa dona Maria Aparecida. “Tim Maia também porque eu gosto muito desse balanço da música Black”. Atualmente, as cantoras da MPB Marisa Monte e Vanessa da Mata são fontes de inspiração.

Como goiabada e queijo, Núbia se viu em Sampa. A terra da garoa foi um sonho de infância realizado na vida adulta. Após pegar o diploma, Núbia resolveu gravar o primeiro CD autoral no Sudeste. No íntimo ela foi buscar influências para o seu trabalho. Ou seja, dar a cara para bater e a voz para grandes mestres lapidar. Os 4 anos vividos lá– todos bem trilhados -foram para ela,sem dúvida,a maior faculdade da vida real.

“Pude realizar shows bacanas, conhecer grandes artistas, músicos maravilhosos. E, viver no maior celeiro musical do país, aonde se dispõe de uma grande programação cultural 24 horas por dia. E, o que é melhor, com todos os gostos e todas as tribos”.

Nesse período, Núbia Dourado também deixou muita gente boquiaberta ao falar que era do Tocantins. Alguns espantavam e diziam que ela era corajosa de ir sozinha para uma grande metrópole. Outros afirmavam que nem sabiam aonde ficava “o tal Tocantins”.

Em Sampa, Núbia Dourado ficou conhecida como a cantora do Tocantins. “A semente foi plantada lá” diz emocionada. Amizades firmadas e por traz de cada canção uma história a ser desvendada. Por exemplo: “Galega Preta”, uma composição de Tibles,foi feita para ela em todos os sentidos. Descrita e pensada exatamente para sua voz e seus trejeitos.

“A música caiu como uma luva”, diz Núbia, sorrindo com os olhos. O bacana mesmo é ver a força que essa canção teve na vida dela, enquanto artista. “Eu aprendi a reconhecer a minha cultura e a minha beleza negra”, confessa. Em cada novo show que essa música é replicada as pessoas se inspiram. Inspiração essa que vai desde o cabelo a uma autoafirmarção. “Acho muito bom que ao assumir minha originalidade, influencio outras pessoas a se identificarem com essa aparência mestiça e a música Galega Preta imprimi tudo isso”, explica a cantora.

Volta pra casa

Núbia Dourado entrega sua negritude à música. É só mergulhar no universo sonoro dela para notar os elementos afros nos arranjos e o swing da música Black. Caminho percorrido em Sampa e que hoje tem como sina sua implementação no Tocantins.

“Tenho raízes muito fortes no Tocantins e de repente pra minha própria surpresa, esse ano decidi voltar”. O caminho de volta as origens é um processo natural. Até as andorinhas fazem isso. A busca de conhecimentos resulta no ter que repassar. Núbia não gosta de afirmar que é uma referência da música tocantinense. Incrível! Humildade em pessoa até parece que esquece que lá em São Paulo era intitulada como a cantora do Tocantins.

“Eu sei que fiz uma caminhada muito bacana ao longo desses anos. Hoje só penso em poder produzir e fazer meu trabalho cada vez melhor”, resume. Uma das maiores alegrias da Dourado é ser reconhecida nas ruas. A caminhada ainda é longa para essa jovem cantora, que pretende deixar como legado uma grande obra musical, projetos culturais e um livro. Enquanto isso, ela enche ouvidos sensíveis de boa música. Revigora a alma de pessoas que tem os corações cheios de amor.

sábado, 26 de outubro de 2013

Três sabonetes e nada mais


Relacionar: dar ou fazer relação! Essa ação escrita no dicionário e tão presente no cotidiano de todos se torna árdua quando se trata de um homem e uma mulher, uma mulher e uma mulher ou um homem e um homem. Brincadeiras a parte. O que proponho aqui é conversar um pouco sobre os relacionamentos amorosos da era do nada sério. Pegação! Ficação! Ato ou efeito de valorizar as coisas rasas da vida. E, o pior é que nesse jogo de sedução barata o amor está banalizado, como se esse sentimento comparado ao jiló, a jaca ou ao quiabo pudesse ser encontrado em qualquer quitanda, feira ou supermercado.
Ana Beatriz conheceu João Henrique e foi arrebatador. Olhares, sorrisos, beijos, tesão, sexo selvagem.... No momento: juras de amor. Êpa!? Tão rápido assim? Na hora, Ana assustou e até disse:
- Fala isso agora. Quero ver depois!?
- Vou te provar que estou sendo sincero! (retrucava João)
O rola e enrola durou pouco menos de um mês. Ana Beatriz adentra o banheiro, este que foi testemunha de muitos gemidos e juras de amor, olha seu reflexo no espelho e logo repara a saboneteira. Lá, está o sabonete preferido com cheiro de morango. Lágrimas correm. Pois, o relacionamento dela com João Henrique durou o tempo equivalente a dois sabonetes gastos.
Esse namoro relâmpago, se é que posso chamar de namoro tem sido a marca dos nossos dias. As pessoas só querem sexo, dar e receber orgasmos e nada mais. Troca de compromissos? Ficam para os contos, os já firmados e os amantes que acreditam no amor. Refiro-me a amor na completude da palavra. Ao companheirismo, a entrega, a confiança, a alianças...
Quando Ana Beatriz já tinha superado a dor e a desilusão dos dois sabonetes. Chega João Henrique arrependido. Novamente fazendo juras e afirmando que ela é a mulher da vida dele. Explica o sumiço:
- Tá difícil para mim.
- Como assim?!
- É que ando com problemas espirituais.
Humm... Ela caiu como uma patinha na história. Preocupada, ainda fez orações, afinal o super-homem estava fragilizado. Novos olhares, novos sorrisos, tesão duplicado e, claro, expectativas, após o sexo selvagem. O rola e enrola durou quase duas semanas e mais um sabonete. As juras de amor do João eram até conseguir o que queria. Ela nem pressionava mais e ele sempre na defensiva:
-Ainda é cedo. Vamos com calma, pois o santo é de barro.
Resultado: ela triste. Ele sabe se lá como! Que ironia do destino na vida dessa mulher e de tantas outras. E, vice versa. Minha gente os relacionamentos amorosos estão fragilizados. Muitos se transformaram em farpas. Você já imagina o fim dessa história. Então, sem mais delongas:
- Você não quer namorar comigo, né? (ela perguntou tristonha)
- Ainda estou pensando sobre isso. (ele convicto)
No íntimo ela já sabia. Intuição de mulher é forte. Por isso, em um fim de tarde, Ana Beatriz olha o horizonte, toma fôlego e enfim, manda um SMS. “Foi ótimo te conhecer. E, se você ainda continua indeciso e pensando se me namora ou não. Continue com seus pensamentos, pois eu escolho seguir o meu caminho. Seja feliz!” E, o João Henrique será que ainda está com os problemas espirituais?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Leve a leveza do amar


Deseje,
um desejo que aperte.
Desses que dura uma eternidade.

Espere espremer o doce amargo:
de não estar com você,
pra cultuar a leveza do amor.

Suplique:
Que o córrego corra e leve
certezas, incertezas, farpas e aspas de um sentimento mútuo.

Que o rio escorra lágrimas, desavenças, amarras, esperanças...
Até rimar um reencontro, um abraço, um laço singelo de estar junto.

Que o mar leve mágoas e traga união.
Ondas renovadas no amor que refresca e acalenta.

Enfim; córrego, rio e mar:
leve a dureza e traga a leveza do amar.

sábado, 27 de julho de 2013

Chupa essa...


Ser traído, quem nunca foi que atire a primeira pedra. Claro que passar por essa situação não é nada agradável. Fingir não saber para em um momento bem oportuno pagar na mesma moeda? Ou descabelar-se e fazer aquele barraco? E, que tal seguir o dito cujo ou a dita cuja para ter provas concretas na hora de pedir uma explicação? Sinceramente todas essas alternativas são vias para um mesmo caminho: o fim de uma relação.

Mas, como diz as más línguas até o dia da “descoberta”, muitos por aí se fazem de desentendidos. Possessão, status, filhos... são algumas das justificativas para o famoso “vamos tentar mais uma vez”. Traição! Esse tema me caiu de paraquedas em um episódio muito interessante.

Após deixar a minha mãe na rodoviária de Goiânia para o seu retorno à cidade de Porangatu vou para o ponto de ônibus. Primeiro me passa o 270 lotaaado, que mesmo eu dando sinal me deixou a ver navios. Enfim, passo para o outro lado da rua, para esperar o ônibus da mesma linha, que só veio 10 minutos depois. Entro no ônibus e começo a pensar em nada. Dizem por aí que mente vazia é oficina do diabo, (hehehe) para mim no caso, a minha mente se abre como uma janela para observar personas...

- Muita calma nessa hora! - diz ao telefone um moreno, alto e forte que justamente, senta ao meu lado.

- Você é quem sabe – continua o papo.

A fala dele tinha um “q” de sensualidade e malandragem. Logo penso: é a namorada. Que nada! Pois, logo ele emenda:

- Olha já te expliquei, não dá para largar dela. Mas, eu fico com você e vamos ver no que vai dar! – sorri.

Nesse momento, tento disfarçar ao máximo olhando para o outro lado. Quando a suposta amante, provavelmente pergunta a ele como foi o último encontro:

- Só o ouro! Você é demais. Já estou com saudades – ele todo pavão cheio de sorrisos.

Logo começa a sessão de despedidas:

- Se desligar é porque meu celular descarregou, viu? - repete duas vezes.

Até a despedida final:

- Amanhã a gente conversa mais. Ah, quando eu trabalhar a noite você sabe pra onde eu vou, né? Beijos! – todo sorridente.

Não demora muito para que o pai de família a priori, mas que para mim não passava de um safado... Se tornasse ali dentro do ônibus “um conquistador barato”. Todo simpático começa a puxar conversa comigo. De praxe aquelas frases feitas:

- Nossa o ônibus está rápido, né?

- Sim – disse de forma ríspida.

Aí refleti rápido: nem conheço a mulher dele, para que julgamentos. Durante o trajeto não parava de conversar comigo. Por isso, descobri que ele é eletricista e que mora em um setor próximo ao meu. Antes, de descer do ônibus aproveitou para me fazer um convite:

- A sorveteria M & D é minha. Vem aqui qualquer dia tomar um sorvete! – todo galanteador.

Não respondo nem sim nem não. Enquanto ele desce do ônibus penso – já que o nome dele é Denílson será que a mulher dele “a traída” se chama Maria, Madalena, Milena, Marta, Morgana....

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Arrocha



Zé cutuca a Lu
Lu cutuca o Zé
Ele sorri
Um sorriso largo e falho
O dela é cheio de dentes e charme
Juntos apertam o passo e rodopiam

Salão de xote é lugar sagrado
Pro casal, síndico e serviçal
Alagoinha é assim
Dois pra lá e dois pra cá

Muito vucuvucu no dia
No outro só quando convém
Enquanto a lua tá lá
Os casais se juntam, se separam...

Alagoinha é assim
Dois pra lá e dois pra cá
Tem troca de casais
Muito swing

O Zé arrocha a Lu
E ela acha bom!


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Primavera



O passarim e o beija-flor
Juntos e sós
Dançam como a dama e o vagabundo
Rito de espera
Pelo desabrochar da margarida
E, a vinda da primavera

Cantorias, zunidos, zangões
Amarelo, azul, laranja
Um arco-íris de emoções

Na floresta da dona Joaninha
Rei é rei
Passarim beija a flor
Flor é beijada por andorinha
Pardal também tem vez

O céu vira festa
Como carnaval repleto de confetes e serpentinas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Rei do nordeste



Não é por acaso que certas pessoas se tornam mitos. Para chegar a essa definição precisei ir além das páginas biográficas. Tive que viajar. Chegar em Caruaru-PE e conhecer o orgulho nordestino estampado no sorriso da vendedora de tapiocas que disse “esse é o nosso Rei do Baião!”. A frase cheia de ênfase foi dita, enquanto colocava a carne seca na tapioca e de rabo de olho prestava atenção na televisão, que na época e horário passava a mini-série “Gonzaga - De pai pra Filho”.

Luiz Gonzaga do Nascimento, filho do sanfoneiro Januário José Santos e da dona de casa Ana Batista de Jesus, tornou-se retirante por causa de um sonho. No Rio de Janeiro cantou aos quatro cantos: “quando olhei a terra ardendo. Com a fogueira de São João. Eu perguntei a Deus do céu, ai. Por que tamanha judiação... Que braseiro, que fornalha. Nem um pé de plantação. Por falta d’ água perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. Até mesmo a asa branca bateu assas do sertão...”

Quem visita o agreste pernambucano percebe que o chão continua árido. Em contrapartida, o povo também continua alegre. Na estação do forró de Caruaru – onde ocorre o maior São João do Brasil – a música de Luiz Gonzaga até hoje é ecoada, dançada e responsável por embalar muitos namoros. O rei do baião gravou 200 discos e vendeu mais de 300 milhões de cópias. A música “Asa Branca”, cantada por mais de 100 intérpretes, é considerada o hino do nordeste.

A saga de Luiz Gonzaga, filho da cidade de Exu–PE, foi fazer a junção dos sons do triângulo da zabumba e da sanfona em um ritmo único. Muito sulista e até gringo teve que parar para ouvir os martírios e sofrimentos de um povo esquecido. Até então, o baião não tinha vez frente à bossa nova. Isso, até o retirante Luiz Gonzaga começar a despontar. Carreira frutífera, composições e inspirações que fizeram do filho Gonzaguinha também um artista. O rei do Baião fez história. O mais difícil é entender porque só no ano do seu centenário ele foi protagonista de um filme longa metragem.

O ator que o interpreta no “Gonzaga - De pai pra Filho”, Adélio Lima Andrade (Foto) é também agente cultural no museu do Barro de Caruaru-PE. Para ele participar do filme e ainda mais “sendo” o Luiz Gonzaga adulto foi um presente de Deus. “Eu aguardei 25 anos por essa oportunidade. Além de fechar um ciclo, pude mostrar que nós aqui também fazemos arte”.

O ator disse com lágrimas nos olhos que, durante os bastidores da gravação do filme, a atriz Nanda Costa, comentou “Adélio trouxe o cheiro do nordeste com toda a carga emotiva”. Senti nesse momento a honra que foi para ele representar um mito. Gonzaga foi “um matuto que inventou o nordeste. Depois que ele surgiu na mídia foi que o resto do país olhou pra gente com mais carinho”, concluiu.





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sonho distante...


O desespero bateu na minha porta quando terminei o 2° grau, no Colégio Estadual Waldemar Lopes do Amaral Brito, em Porangatu. Na época, não queria prestar vestibular na unidade da Universidade Estadual de Goiás e o pior é que não tinha outra opção de instituição de ensino superior na cidade. Quero deixar claro que eu não tinha nada contra a UEG, a resistência era porque não queria seguir a tradição da minha família, constituída basicamente de docentes.

Lembro-me que nesta época ficava sem graça com a minha mãe, pois queria encontrar a melhor forma de explicar a ela a decisão de não prestar vestibular para licenciatura. A saída, portanto, seria mudar para outra cidade. Recebi o convite do meu pai para tentar o vestibular da Universidade Federal do Tocantins. E fui!

A viagem durou 6 horas, afinal de Porangatu a Palmas, capital do Tocantins, são quase 400 km. Tive que ser forte em relação ao meu ideal de fazer a graduação em Jornalismo. Só que para isso paguei um preço alto. A saudade era como ferida aberta. Tinha noites em que chorava, outras em que reafirmava o meu desejo. Junto da memória a cena de despedida, minha mãe aos prantos: “Vai minha filha. Vai ser melhor para você”.

Após quatro meses de cursinho preparatório, apostei todas as minhas cartas no curso de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Nem me dei ao luxo de prestar para o mesmo curso em uma faculdade particular para não gerar expectativas. Na época, não existia ENEM, Proúne e tantos outros programas do governo federal para subsidiar o ensino superior em instituições particulares.

Passei. Enfrentei dificuldades das mais distintas possíveis. Comer macarrão instantâneo por um mês, até não aguentar mais o cheiro. Ir para a via de acesso a UFT para pegar carona, pois não tinha dinheiro para o coletivo. Isso quando não enfrentava os mais de 4 km andando a pé. A situação amenizou quando passei a estudar e trabalhar. Minha libertação perante tantos percalços.

Mãe, pai? Uma professora e um corretor de imóveis. Até queriam, mas ambos não tinham dinheiro. Ajudavam na medida do possível. Então, por isso mesmo fui atrás do “tal” dinheiro para sobreviver. Consegui. Às vezes a coisa apertava. Pensava em desistir. Mas na nossa jornada o caminho árduo é sempre amenizado, por anjos que chegam e nos “carregam”. A ajuda vinha de todos os lados. Eu me equilibrava... E, com nó na garganta peguei o diploma no dia 22 de junho de 2006.

A vida é cheia de surpresas mesmo! Depois de 12 anos, volto a Porangatu para escrever esta reportagem, que trata justamente da evasão de jovens para outros polos educacionais. Fico triste por saber que tudo se repete já que as opções de cursos continuam quase as mesmas. A UEG disponibiliza só mais dois cursos, um de licenciatura em Educação Física e outro bacharelado em Sistema de Informação. Nesse meio tempo também foi instalada em Porangatu uma instituição particular, a Faculdade do Norte Goiano (FNG), que oferta Enfermagem e Administração.

A estudante Dannyella Stéfanny de Freitas Postigo não quer nenhuma dessas opções. O sonho dela é fazer Arquitetura, portanto vive dias difíceis. “A parte de sair da cidade é a mais complicada, pois a gente deixa pra trás os pais, os amigos. Aí você chega numa cidade nova e ainda tem que morar sozinho. Meus pais não vão deixar a vida deles para me acompanhar”.

Situação parecida do aluno Fabrício Vieira Gonçalves, que deseja fazer o curso de Engenharia Civil. “E, pra isso eu tenho que estudar bastante. Como aqui na minha cidade não tem o curso nesta área, eu tenho que mudar. Porque se não eu não vou realizar meu sonho”.

Já a colega dele, Vanessa Lima de Moura, pretende fazer o curso de Matemática, na unidade da Universidade Estadual de Goiás (UEG), em Porangatu. Não por vocação, mas por outras questões. “Quero mesmo Medicina, mas como a minha família não tem condições financeiras, eu preciso fazer outro curso para me manter só”.

“A questão financeira até nem tanto é o problema. Então, se eu tiver que estudar fora dá para viver em qualquer outra cidade”, disse Lucas Ribeiro Bastos, um dos poucos privilegiados do norte de Goiás e sul do Tocantins.

“É muito difícil. Pois, vou ter que sair de um lugar que conheço todo mundo e que já tenho toda uma estrutura para ir para um lugar que não conheço ninguém. Vou chegar lá praticamente perdida” disse a vestibulanda do curso de Direito, Maria Clara Pereira.

Tanto Victor Santana Correia Scalabrini quanto Carolline Pereira Bastos pretendem prestar vestibular para Medicina. As instituições de ensino público superior mais próximas deles, que ofertam este curso, ficam a mais de 400 km. O drama de ter que deixar os pais e os amigos é o de menos. A chateação maior deles é o fato de Porangatu, uma cidade polo e tão importante para o estado de Goiás, ainda não disponibilizar melhores oportunidades de formação superior para jovens como eles.

“Porangatu poderia se tornar um polo educacional, pois em toda essa região o ensino superior ainda é muito fraco”, disse Victor Santana Correia Scalabrini. “Como estudante gostaria de reivindicar uma universidade para Porangatu como uma forma de maior desenvolvimento e maior comodidade para todos os jovens daqui”, complementa Carolline Pereira Bastos.

A professora Maria Helena Pinheiro, também se mudou de Porangatu na década de 1970, para estudar. Segundo ela desde este período o sonho de ter uma instituição federal de ensino superior já existia. “Hoje mais do que nunca! É a última cidade do norte de Goiás”.

Na concepção dela, minha e de tantos outros essa evasão dos jovens prejudica muito a região. São jovens cheios de talentos e energias que migram para outros centros e que não voltam mais. A cidade perde, as famílias perdem e os próprios jovens perdem a oportunidade de ajudar no desenvolvimento de sua cidade nata

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Somos palhaços


As pessoas andam cada vez mais sérias. Não é preciso nem dar a volta no quarteirão da sua casa para perceber que ser compenetrado é uma característica bem quista nos dias de hoje. Mais sem graça é descobrir que eu também sou assim (hehehe). Normalmente não conseguimos rir de nós mesmos. Até parece que a vida se resume em compromissos, responsabilidades e encontros marcados de frieza e seriedade.
Sábado pela manhã chego ao Centro Cultural Oscar Niemeyer em Goiânia para uma oficina intensiva de “escrita para humor”, uma organização do Verus GladiAtores um projeto da própria casa. Tudo pronto e os professores: Clegis de Assis e Marcelo Marques dão o início, quando eu totalmente sem graça e sem entender o porquê que teria que ficar descalço vou logo afirmando que a oficina que gostaria de fazer era a de escrita. Eles receptivos e sorridentes: “a oficina é essa! Quer dizer esta é de humor físico”.

Primeira dinâmica, quem errasse teria que imitar uma barata; detalhe: barriga para cima e batendo perninhas e “asinhas”... Em uma roda típica de atores e estudantes de teatro. Quem errou? Sim! Euzinha aqui me transformei de cara em uma barata daquelas bem desengonçadas. Que sensação! Lembrei-me da obra de Franz Kafka “A Metamorfose”. Enfim... sorri muito de mim mesma!

“Todos nós somos palhaços. Todos nós somos ridículos” disse o professor Marcelo Marques. Só que em uma sociedade hipócrita como a nossa quem quer ser palhaço? No nosso íntimo queremos é rir da desgraça dos outros. Sorrir quando a pessoa que está do nosso lado cai. Muitas vezes nem estendemos a mão. Afinal, a queda não foi nossa mesmo! Precisamos quebrar a inútil máscara e sorrir de nós mesmos. Ou melhor, deixar que sorriam da gente. É bom ser palhaço!

Aprendi técnicas de como levar um tropeção e da queda trazer sorrisos. Reaprendi dar cambalhotas, plantar bananeiras... coisas que deixei na minha infância. Agora entendo porque as crianças são tão felizes, o palhaço é o ídolo maior do mundo imaginário que cerca a garotada. Nos bastidores do teatro muitos adultos tratam o ator que interpretada o palhaço com desdém. “Eu não gosto quando falam do palhaço de forma pejorativa. Pois eu não sou um simples palhaço. Eu sou um palhaço e tanto”, Marcelo Marques me diz isso de boca cheia enquanto amarra o cadarço do tênis.

Durante a oficina “Humor Físico” a dinâmica do chapéu foi extremamente instigante e reflexiva. Um dos participantes deveria levantar e convidar um colega para juntos, sem nenhuma combinação prévia atravessar para o outro lado em busca do chapéu (novo elemento). “Lembrem-se que o chapéu é o fim. O mais importante é o meio”! Afirmava volta e meia Marcelo Marques.

Bruna Souza Martins (foto) e o colega deram um show de interpretação. Com gestos simples e objetivos passearam, brincaram. Nós que assistíamos até esquecemos por alguns instantes que existia chapéu. “Acho que o mais importante foi não se preocupar com o que estava ao redor (pessoas) e não ter medo do ridículo” afirmou a jovem de 16 anos. Ainda sobre a atividade, ela disse que a favoreceu muito em um bloqueio que ela possui que é a temida e devastadora timidez. Estudante de teatro há um ano diz convicta que quer seguir carreira na área.

O projeto “Verus GladiAtores” foi idealizado pelo teatrólogo Alan Foster e existe há um ano e meio, com trabalhos na área da pesquisa, da disseminação e da montagem de espetáculos teatrais. Tem a pretensão de ser um Centro de desenvolvimento artístico dentro do Centro Cultural Oscar Niemeyer. Um espaço quase que desabitado por jovens cheio de energias e sonhadores como a Bruna, prontos para serem lapidados.