terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Rei do nordeste



Não é por acaso que certas pessoas se tornam mitos. Para chegar a essa definição precisei ir além das páginas biográficas. Tive que viajar. Chegar em Caruaru-PE e conhecer o orgulho nordestino estampado no sorriso da vendedora de tapiocas que disse “esse é o nosso Rei do Baião!”. A frase cheia de ênfase foi dita, enquanto colocava a carne seca na tapioca e de rabo de olho prestava atenção na televisão, que na época e horário passava a mini-série “Gonzaga - De pai pra Filho”.

Luiz Gonzaga do Nascimento, filho do sanfoneiro Januário José Santos e da dona de casa Ana Batista de Jesus, tornou-se retirante por causa de um sonho. No Rio de Janeiro cantou aos quatro cantos: “quando olhei a terra ardendo. Com a fogueira de São João. Eu perguntei a Deus do céu, ai. Por que tamanha judiação... Que braseiro, que fornalha. Nem um pé de plantação. Por falta d’ água perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. Até mesmo a asa branca bateu assas do sertão...”

Quem visita o agreste pernambucano percebe que o chão continua árido. Em contrapartida, o povo também continua alegre. Na estação do forró de Caruaru – onde ocorre o maior São João do Brasil – a música de Luiz Gonzaga até hoje é ecoada, dançada e responsável por embalar muitos namoros. O rei do baião gravou 200 discos e vendeu mais de 300 milhões de cópias. A música “Asa Branca”, cantada por mais de 100 intérpretes, é considerada o hino do nordeste.

A saga de Luiz Gonzaga, filho da cidade de Exu–PE, foi fazer a junção dos sons do triângulo da zabumba e da sanfona em um ritmo único. Muito sulista e até gringo teve que parar para ouvir os martírios e sofrimentos de um povo esquecido. Até então, o baião não tinha vez frente à bossa nova. Isso, até o retirante Luiz Gonzaga começar a despontar. Carreira frutífera, composições e inspirações que fizeram do filho Gonzaguinha também um artista. O rei do Baião fez história. O mais difícil é entender porque só no ano do seu centenário ele foi protagonista de um filme longa metragem.

O ator que o interpreta no “Gonzaga - De pai pra Filho”, Adélio Lima Andrade (Foto) é também agente cultural no museu do Barro de Caruaru-PE. Para ele participar do filme e ainda mais “sendo” o Luiz Gonzaga adulto foi um presente de Deus. “Eu aguardei 25 anos por essa oportunidade. Além de fechar um ciclo, pude mostrar que nós aqui também fazemos arte”.

O ator disse com lágrimas nos olhos que, durante os bastidores da gravação do filme, a atriz Nanda Costa, comentou “Adélio trouxe o cheiro do nordeste com toda a carga emotiva”. Senti nesse momento a honra que foi para ele representar um mito. Gonzaga foi “um matuto que inventou o nordeste. Depois que ele surgiu na mídia foi que o resto do país olhou pra gente com mais carinho”, concluiu.





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sonho distante...


O desespero bateu na minha porta quando terminei o 2° grau, no Colégio Estadual Waldemar Lopes do Amaral Brito, em Porangatu. Na época, não queria prestar vestibular na unidade da Universidade Estadual de Goiás e o pior é que não tinha outra opção de instituição de ensino superior na cidade. Quero deixar claro que eu não tinha nada contra a UEG, a resistência era porque não queria seguir a tradição da minha família, constituída basicamente de docentes.

Lembro-me que nesta época ficava sem graça com a minha mãe, pois queria encontrar a melhor forma de explicar a ela a decisão de não prestar vestibular para licenciatura. A saída, portanto, seria mudar para outra cidade. Recebi o convite do meu pai para tentar o vestibular da Universidade Federal do Tocantins. E fui!

A viagem durou 6 horas, afinal de Porangatu a Palmas, capital do Tocantins, são quase 400 km. Tive que ser forte em relação ao meu ideal de fazer a graduação em Jornalismo. Só que para isso paguei um preço alto. A saudade era como ferida aberta. Tinha noites em que chorava, outras em que reafirmava o meu desejo. Junto da memória a cena de despedida, minha mãe aos prantos: “Vai minha filha. Vai ser melhor para você”.

Após quatro meses de cursinho preparatório, apostei todas as minhas cartas no curso de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Nem me dei ao luxo de prestar para o mesmo curso em uma faculdade particular para não gerar expectativas. Na época, não existia ENEM, Proúne e tantos outros programas do governo federal para subsidiar o ensino superior em instituições particulares.

Passei. Enfrentei dificuldades das mais distintas possíveis. Comer macarrão instantâneo por um mês, até não aguentar mais o cheiro. Ir para a via de acesso a UFT para pegar carona, pois não tinha dinheiro para o coletivo. Isso quando não enfrentava os mais de 4 km andando a pé. A situação amenizou quando passei a estudar e trabalhar. Minha libertação perante tantos percalços.

Mãe, pai? Uma professora e um corretor de imóveis. Até queriam, mas ambos não tinham dinheiro. Ajudavam na medida do possível. Então, por isso mesmo fui atrás do “tal” dinheiro para sobreviver. Consegui. Às vezes a coisa apertava. Pensava em desistir. Mas na nossa jornada o caminho árduo é sempre amenizado, por anjos que chegam e nos “carregam”. A ajuda vinha de todos os lados. Eu me equilibrava... E, com nó na garganta peguei o diploma no dia 22 de junho de 2006.

A vida é cheia de surpresas mesmo! Depois de 12 anos, volto a Porangatu para escrever esta reportagem, que trata justamente da evasão de jovens para outros polos educacionais. Fico triste por saber que tudo se repete já que as opções de cursos continuam quase as mesmas. A UEG disponibiliza só mais dois cursos, um de licenciatura em Educação Física e outro bacharelado em Sistema de Informação. Nesse meio tempo também foi instalada em Porangatu uma instituição particular, a Faculdade do Norte Goiano (FNG), que oferta Enfermagem e Administração.

A estudante Dannyella Stéfanny de Freitas Postigo não quer nenhuma dessas opções. O sonho dela é fazer Arquitetura, portanto vive dias difíceis. “A parte de sair da cidade é a mais complicada, pois a gente deixa pra trás os pais, os amigos. Aí você chega numa cidade nova e ainda tem que morar sozinho. Meus pais não vão deixar a vida deles para me acompanhar”.

Situação parecida do aluno Fabrício Vieira Gonçalves, que deseja fazer o curso de Engenharia Civil. “E, pra isso eu tenho que estudar bastante. Como aqui na minha cidade não tem o curso nesta área, eu tenho que mudar. Porque se não eu não vou realizar meu sonho”.

Já a colega dele, Vanessa Lima de Moura, pretende fazer o curso de Matemática, na unidade da Universidade Estadual de Goiás (UEG), em Porangatu. Não por vocação, mas por outras questões. “Quero mesmo Medicina, mas como a minha família não tem condições financeiras, eu preciso fazer outro curso para me manter só”.

“A questão financeira até nem tanto é o problema. Então, se eu tiver que estudar fora dá para viver em qualquer outra cidade”, disse Lucas Ribeiro Bastos, um dos poucos privilegiados do norte de Goiás e sul do Tocantins.

“É muito difícil. Pois, vou ter que sair de um lugar que conheço todo mundo e que já tenho toda uma estrutura para ir para um lugar que não conheço ninguém. Vou chegar lá praticamente perdida” disse a vestibulanda do curso de Direito, Maria Clara Pereira.

Tanto Victor Santana Correia Scalabrini quanto Carolline Pereira Bastos pretendem prestar vestibular para Medicina. As instituições de ensino público superior mais próximas deles, que ofertam este curso, ficam a mais de 400 km. O drama de ter que deixar os pais e os amigos é o de menos. A chateação maior deles é o fato de Porangatu, uma cidade polo e tão importante para o estado de Goiás, ainda não disponibilizar melhores oportunidades de formação superior para jovens como eles.

“Porangatu poderia se tornar um polo educacional, pois em toda essa região o ensino superior ainda é muito fraco”, disse Victor Santana Correia Scalabrini. “Como estudante gostaria de reivindicar uma universidade para Porangatu como uma forma de maior desenvolvimento e maior comodidade para todos os jovens daqui”, complementa Carolline Pereira Bastos.

A professora Maria Helena Pinheiro, também se mudou de Porangatu na década de 1970, para estudar. Segundo ela desde este período o sonho de ter uma instituição federal de ensino superior já existia. “Hoje mais do que nunca! É a última cidade do norte de Goiás”.

Na concepção dela, minha e de tantos outros essa evasão dos jovens prejudica muito a região. São jovens cheios de talentos e energias que migram para outros centros e que não voltam mais. A cidade perde, as famílias perdem e os próprios jovens perdem a oportunidade de ajudar no desenvolvimento de sua cidade nata