quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Galega Preta


“Quem te vê chegar
Não imagina o que a Europa e a África juntas podem causar
Um tom de pele
Um tipo de cabelo
Tão diferentes, mas a combinar
Não dá pra saber,enfim
O Brasil é a mistura
Eu vou lhe chamar: galega preta, galega preta...”
(Tibles)


O sorriso inebriante de Núbia Dourado abre caminhos. A voz dela ecoa aos quatros cantos. Composições ritmadas que agitam os rincões do Norte. Músicas que trazem vida e alegria ao povo tocantinense. Essa é a “Galega preta” que nasceu na pacata cidade de Rio Sono, a 143 km de Palmas.

A pequenina Núbia ainda não tinha o Dourado no nome, tinha a atitude de uma menina de ouro que sonhava grande. O chamado para o universo da música surgiu nos recreios da escola. Ela adorava cantar para as amigas. Só que um dia, num evento cívico do colégio,a timidez gritou e não a deixou subir ao palco,esse lugar que hoje faz sentir um frio na barriga e a deixa tão feliz e iluminada.

“Descobri depois que o que eu mais gostava era o que eu mais tinha medo”, revela. Núbia Dourado passou por cima de todos os medos, preconceitos para cantar e, claro, encantar. A ribeirinha saiu em busca de oportunidades. Nos palcos da vida teve glórias, desafetos, lágrimas, alegrias e desapontamentos. “Encontrei muitas pessoas boas no caminho, mas também sofri decepções com outras”.

Para satisfazer o preocupado pai Antoniel Lustosa, se tornou publicitária em Palmas. Claro, que na época nem imaginava que seria ela mesma a profissional de sua própria carreira artística. E, não tinha como ser diferente, já no primeiro dia de aula o pedido da turma era: “Núbia dá uma canja aí!”

De canção em canção, hoje Núbia Dourado reconhece que foram os colegas da faculdade os seus maiores incentivadores. “Eles me ajudaram no projeto do CD e sempre me alertavam sobre festivais”, diz. O jeito foi mergulhar de cabeça e como diretora de cultura do DCE da ULBRA contribuiu com a organização do I Festival de Música Universitária em Palmas.

Em Sampa

Todos nós sabemos que o cantor se faz por influências musicais. E, para Núbia, não seria diferente. Ela cresceu ao lado de músicas regionais. Coladinha no sertanejo de raiz... “Minha avó dizia pra eu cantar Sandra de Sá”. Sábia essa dona Maria Aparecida. “Tim Maia também porque eu gosto muito desse balanço da música Black”. Atualmente, as cantoras da MPB Marisa Monte e Vanessa da Mata são fontes de inspiração.

Como goiabada e queijo, Núbia se viu em Sampa. A terra da garoa foi um sonho de infância realizado na vida adulta. Após pegar o diploma, Núbia resolveu gravar o primeiro CD autoral no Sudeste. No íntimo ela foi buscar influências para o seu trabalho. Ou seja, dar a cara para bater e a voz para grandes mestres lapidar. Os 4 anos vividos lá– todos bem trilhados -foram para ela,sem dúvida,a maior faculdade da vida real.

“Pude realizar shows bacanas, conhecer grandes artistas, músicos maravilhosos. E, viver no maior celeiro musical do país, aonde se dispõe de uma grande programação cultural 24 horas por dia. E, o que é melhor, com todos os gostos e todas as tribos”.

Nesse período, Núbia Dourado também deixou muita gente boquiaberta ao falar que era do Tocantins. Alguns espantavam e diziam que ela era corajosa de ir sozinha para uma grande metrópole. Outros afirmavam que nem sabiam aonde ficava “o tal Tocantins”.

Em Sampa, Núbia Dourado ficou conhecida como a cantora do Tocantins. “A semente foi plantada lá” diz emocionada. Amizades firmadas e por traz de cada canção uma história a ser desvendada. Por exemplo: “Galega Preta”, uma composição de Tibles,foi feita para ela em todos os sentidos. Descrita e pensada exatamente para sua voz e seus trejeitos.

“A música caiu como uma luva”, diz Núbia, sorrindo com os olhos. O bacana mesmo é ver a força que essa canção teve na vida dela, enquanto artista. “Eu aprendi a reconhecer a minha cultura e a minha beleza negra”, confessa. Em cada novo show que essa música é replicada as pessoas se inspiram. Inspiração essa que vai desde o cabelo a uma autoafirmarção. “Acho muito bom que ao assumir minha originalidade, influencio outras pessoas a se identificarem com essa aparência mestiça e a música Galega Preta imprimi tudo isso”, explica a cantora.

Volta pra casa

Núbia Dourado entrega sua negritude à música. É só mergulhar no universo sonoro dela para notar os elementos afros nos arranjos e o swing da música Black. Caminho percorrido em Sampa e que hoje tem como sina sua implementação no Tocantins.

“Tenho raízes muito fortes no Tocantins e de repente pra minha própria surpresa, esse ano decidi voltar”. O caminho de volta as origens é um processo natural. Até as andorinhas fazem isso. A busca de conhecimentos resulta no ter que repassar. Núbia não gosta de afirmar que é uma referência da música tocantinense. Incrível! Humildade em pessoa até parece que esquece que lá em São Paulo era intitulada como a cantora do Tocantins.

“Eu sei que fiz uma caminhada muito bacana ao longo desses anos. Hoje só penso em poder produzir e fazer meu trabalho cada vez melhor”, resume. Uma das maiores alegrias da Dourado é ser reconhecida nas ruas. A caminhada ainda é longa para essa jovem cantora, que pretende deixar como legado uma grande obra musical, projetos culturais e um livro. Enquanto isso, ela enche ouvidos sensíveis de boa música. Revigora a alma de pessoas que tem os corações cheios de amor.