domingo, 27 de julho de 2014

O anjo descansou...



Isolar. Quem nunca sentiu esse desejo?O autismo é fundamentalmente uma forma particular de se situar no mundo e, portanto, de se construir uma realidade para si mesmo. A ausência de linguagem, solilóquios, a auto agressividade, a insensibilidade à dor ou a falta de sensação de perigo são alguns dos sintomas que mostram o isolamento da pessoa em relação ao mundo. A tendência é de bastar-se a si mesmo. Incógnitas... Nesse universo de questionamentos foi que Wander dos Santos Anjos se inseriu.
O caminho percorrido de Wander, ainda durante a faculdade de medicina foi sempre atrelado a essa doença. Rodeado de novos casos, novas dúvidas e mais e mais estudos. Noites inteiras para compreender o que muitas vezes não conseguia. Nem por isso desistiu. O jovem de sorriso largo e cativante se transformou em um experiente neuropediatra de Goiânia, porém não menos simpático. Após 40 anos de profissão ele questionou a si mesmo:
- Será que um dia todo mundo vai ter comportamento autista? Eu sinceramente não sei!
Doutor Wander se tornou referência no assunto. Normalíssimo, pois o amor aos pacientes sempre foi imensurável. Tamanha paixão comprovada em mais de 20 anos trabalhados de graça na Associação Pestalozzi. Ação de amor ao próximo, que transformou o cotidiano de Wander mais leve, mais alegre e mais poético. Quando o conheci fiquei impressionada com a gentileza e com o jeito extrovertido dele ser. Inclusive fui alvo de algumas piadas:
-Pensou que eu era um velhinho rabugento, né!?
Dei um sorriso disfarçado, pois ele leu o meu pensamento. Tinha imaginado sim um médico sério, apressado e muito direto. Só, que ele não era nada disso. Wander sempre vai ser para quem o conheceu, um super homem: jovem, brincalhão, educado e comprometido com a missão de medicar.
Ao longo da sua carreira tiveram casos que o intrigaram e fizeram refletir:
- Puxa vida. Será que eu não errei no diagnóstico de alguns pacientes? Porque a gente sabe que o autista teoricamente não fala, mas tem um monte de autistas que eu atendi que falam.
A jornada percorrida pelo doutor Wander foi de convívio com muitos sofrimentos evidenciados nos rostos de pacientes, mães e pais. Via angústias, medos, aflições... É por isso, que ele pôde compreender a completude do autismo associado, infelizmente, ao preconceito. Wander não tinha os pacientes como os especiais e sim as mães:
- Eu não acho especial a criança. A criança nasceu assim. Ela é assim. Agora a mãe? Se eu pudesse colocaria todas no meu colo, pois elas são espetaculares.
A sensibilidade dele perante essa problemática é uma realidade muito distante da maioria das pessoas. Por ter estado tão perto de tantas mães ele verificou que não só em Goiânia, mas em toda a América Latina, por questões culturais a culpa é sempre da mãe. Quantos ditos pais largaram suas esposas, por não suportar esse obstáculo da vida, que é ter um filho autista? Elas continuaram firmes na jornada, porém muitas vezes sozinhas.
Quando falamos de futuro temos sonhos e expectativas. O doutor Wander no fundo já sabia:
- Muito provavelmente eu não vou assistir nem os próximos poucos anos. Isso é natural. É fisiológico...
A única tristeza no olhar dele, enquanto falava sobre isso era como ficariam suas crianças? O receio dele era justamente, quem o substituiria? Afinal, eram 40 anos dedicados ao tratamento de crianças dentro da Associação Pestalozzi e que segundo ele em muitas situações nenhum outro médico queria trabalhar lá. Por isso, ele ia ficando. Ia ficando... Pois, era humano e estava preparado para o embate. Muitos outros médicos segundo Dr. Wander queria somente trabalhar com crianças bonitinhas, perfeitas...
Emocionado ele disse:
- Quando eu passar dessa para uma melhor, possivelmente: melhor! Vão ter que arrumar outro médico. Pra isso, é triste falar isso, terão que pagar bem. Caso contrário não virá.
Franco, porém otimista completou dizendo que haverá alguém comprometido. Alguém que como ele goste muito da medicina.

Wander é exemplo
Wander é amor
Ele que tem anjo até no sobrenome
Tornou-se anjo
Deus o buscou dia 15 de maio de 2014
Pois, precisava de mais aliados no céu.