sábado, 15 de novembro de 2014

Hoje me vi no filme









A sensação é de atraso. Mesmo assim, ando compassadamente. Porém, os pingos da chuva ainda tímida começa a molhar o meu rosto. Alegre, acelero os passos. Toc toc toc... ao meu lado a bengala de sempre. Olho e percebo o Cine Cultura. Subo os degraus e sigo em direção a sala de projeção. Não erraria, pois conheço bem o local das várias idas à biblioteca do espaço. O burburinho das pessoas conversando nas imediações indica que será uma sessão de deixar qualquer diretor de cinema extasiado.

- Boa tarde! - Diz o recepcionista da Mostra Cinema e Direitos Humanos

- Olá, boa tarde. Começa agora o filme “Hoje eu quero voltar sozinho?”

- Daqui uns 15 minutinhos. Mas, pode entrar. - Responde educadamente

Sigo apalpando as paredes. Escolho com as mãos uma das poltronas para me assentar. Meu coração pulsa firme, pois esse é um dos meus escurinhos preferidos. Logo o mesmo rapaz da recepção traz o equipamento de áudio descrição e me explica fazer para utilizá-lo:

-Já está ligado. Se precisar aumente o volume é aqui. – Diz segurando o meu dedo indicador

O silêncio reina. Sinal que vai começar a sessão. A primeira cena é descrita: uma piscina e dois adolescentes conversando. Leonardo o protagonista é apresentado. Só depois de uns minutos percebo que ele é como eu. A história me invade. Vejo-me em cada detalhe. Situações parecidas como o preconceito sofrido na sala de aula. A dificuldade de conseguir a autonomia da mobilidade. O desejo do primeiro beijo e de me sentir amado. Sem falar das várias brigas que tive com a minha avó, na chácara que morava com ela em Niquelândia, no norte de Goiás. Discussões, pois ela queria me proteger de tudo e de todos.

Cada desdobramento do filme ia me enxergando. O único momento que não me identifiquei foi quando Leonardo se encanta com o colega de classe Gabriel e consequentimente se tornam um casal apaixonado. Eu não tenho preconceito, pelo contrário sei bem o significado dessa palavra, pois sinto na pele e sei o quanto isso dói. A questão é que gosto de mulher, tanto que já decidi que vou morar com a minha namorada o ano que vem. Só que para conseguir isso, terei que superar vários desafios. O principal deles é provar para a minha família que sou auto-suficiente.

Muita gente tem pena de cego. Precisamos de outras coisas, menos disso! O caminho da escuridão percorrido por nós existe vantagens e desvantagens, como tudo na vida. Desvantagem, por exemplo, é ter o desejo de assistir filmes e nem sempre poder, pois nas salas comerciais não existem equipamentos de áudio descrição. Já a principal vantagem é a de nos superarmos a cada dia. A vida para mim e para você é um desafio em cada amanhecer, independente de cegueira. Tem pessoas que pensam que pelo fato deu ter nascido cego é mais fácil. Na realidade não sei o que é pior, nascer cego ou se tornar cego e ter que renascer. No fundo acredito que existem porquês e eu, digo que estou preparado para tudo.

Não é à toa que faço faculdade de Direito. Isso significa três ônibus pra ir e três para voltar. Eu nasci prematuro de seis meses, por isso houve a má formação na minha retina. Esse detalhe não será o impedidor para que eu siga a diante. Voltando a história do filme, o que mais me fez emocionar foi o amor e a aceitação de Gabriel, dito "normal" pelo Leonardo, dito "anormal". Ele não se importou com a deficiência visual. Essa é a maior lição do filme, independente dessa questão de opção sexual.

A sociedade precisa rever conceitos... Deficiência não é doença. Pelo contrário o que temos é o desejo de vencer novas barreiras a cada dia. Antes que me esqueça o meu nome é Cecílio Alves da Silva Neto, tenho 23 anos e o meu maior sonho é ver além do horizonte. Pois enxergar mesmo, eu já enxergo. A visão que tenho não é a proporcionada pelos olhos físicos, mas com os olhos da alma.