segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Axé


O barracão está preparado e os filhos-de-santo chegam um a um. Todos de branco com colares coloridos em azul, branco, vermelho... As mulheres ajeitam felizes as vestimentas, próprias para um dia de festa. Na cozinha o cheiro de frango e feijão ecoa pelos ares. O pai-de-santo me dá as boas vindas e a sensação inicial é de apreensão ao me assentar e observar o altar, as oferendas, os santos...
Sandra, mulata arredia, senta ao meu lado e fica por uns 10 minutos em silêncio até ele ser rompido:

- Você frequenta aqui há muito tempo?

-Não. É minha primeira experiência.

Aí ela dispara a falar – talvez para justificar algo. Diz que é de família evangélica, porém por ter passado por tantas provações encontrou no terreiro a salvação para os muitos remédios tarja preta prescritos pelo seu psiquiatra. Disse que engravidou e surtou mais ainda, a ponto de quase matar o bebê. A glória dela foi ter ido ao terreiro do setor Urias Magalhães, em Goiânia onde o pai-de-santo deu o passe e indicou banhos. Hoje ela se diz normal e sente que precisa evoluir dentro do centro, para não voltar os picos de loucura de antes. Sorri e se despede.

Observo que os não iniciados utilizam vestimentas mil. À diversidade vai desde um jovem com camiseta preta do AC/DC, uma mulher loira com vestido marrom de gala, a uma senhorinha de saia florida e blusa clara toda engomada. Juntos aguardam o início dos trabalhos. Várias folhas são esparramadas no salão – o pai-de-santo me explica que é uma forma de trazer a natureza para mais perto. Os atabaques começam a falar com os deuses. Os orixás são invocados com cantigas próprias. Saiam rodopiam e braços gesticulam. Suor e mais suor. A roda encanta e impressiona. Logo um filho-de-santo entra em transe. Ele pula e anda como se fosse uma mulher. A mãe-de-santo aproxima-se com um pano branco rendado e joga sobre a cabeça dele, que logo se aquieta.

O relógio aponta 21h e a primeira roda é desfeita. Intervalo repleto de água, café e conversas. Sou apresentada para um jornalista que é filho de Xangô, em que os pais são evangélicos. O chamado para o candomblé aconteceu na vida dele quando em visita a casa, levou para a sua um documentário que conta a história deste Centro de Senador Canedo, fundado por pai-de-santo filho do deus do fogo e do trovão, xangô, que é considerado o justiceiro dos orixás.

Começa a nova roda com batuques fortes e cantigas que harmonizam e trazem a sensação de paz. O pai-de-santo anuncia e entram os orixás: Iansã, Xangô, Iemanjá e Oxalá, que estão incorporados em mulheres reluzentes. Iansã vestida de vermelho é considerada a deusa dos ventos e das tempestades, rodopia e gesticula. Já Iemanjá em tom azul claro roda com mais suavidade. Ela é considerada a deusa dos mares e oceanos e é a mãe de todos os orixás.

Quem gosta de cachaça é Exu.

Quem veste branco é Oxalá.

E, quem gosta de pipoca? – me ofereceram e eu comi (como muitos no terreiro), só que até agora não descobri a qual orixá foi feita a oferenda, anteriormente.

Os deuses do candomblé têm origem nos ancestrais dos clãs africanos, divinizados há mais de 5.000 anos. Acredita-se que tenham sido homens e mulheres capazes de manipular a natureza, ou que trouxeram para o grupo os conhecimentos básicos para a sobrevivência, como a caça, o plantio, o uso de ervas na cura de doenças e a fabricação de ferramentas.

O universo cultural do candomblé, justamente, por ser tão rico deveria respeitado. Até mesmo porque a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab) garante haver 70 milhões de brasileiros, direta ou indiretamente, ligados aos terreiros - seja como praticantes assíduos, seja como cliente, que ocasionalmente pedem uma benção ou um “serviço” ao mundo sobrenatural.

Os alabês, que são os tocadores de atabaques já estão apostos. O relógio aponta meia noite e a última roda é feita. Novamente os orixás entram e harmonizam o local. Cada um é guiado por um pai-de-santo ou uma mãe-de-santo. As mulheres e suas saias rodopiam. Em transe, elas fazem todos os movimentos de olhos fechados. Ao final o pai-de-santo agradece a todos os presentes e dá o grito de felicidade: AXÉ! Essa que é a saudação em ioruba, que significa energia vital e sagrada.