sábado, 17 de dezembro de 2011

O sonho de continuar mestre


Conhecer pessoas faz parte do meu cotidiano. Descrever, relatar e informar às vezes dói. Às vezes não. Mas, reconheço que contar histórias é sempre uma missão incrível, principalmente, quando me deparo com situações muito adversas da minha. E, quando aprendo com essas vivências é simplesmente fantástico. Em minha recente jornada a comunidade Kalunga* conheci uma jovem diferenciada. Maria Helena é quilombola, mãe e professora que ensina grandes lições.
Com o vigor de uma menina e a sabedoria de uma anciã, ela sonha com dias melhores. Aos 14 anos resolveu que teria que casar, pois essa era a única forma de estudar. Afinal, não existia escola na comunidade e seria bem mais fácil na época convencer o esposo do que seus pais que mulher também tinha direito a educação.
O casamento não deu certo. Mas, rendeu-lhe três lindos presentes: um casal de filhos e um diploma de ensino médio. Morou em Brasília. E, foi justamente na capital do país que resolveu voltar para suas raízes. Aceitou o chamado de ajudar a comunidade Kalunga. A maneira? Ensinar crianças que o ideal não é segurar no cabo da enxada.
Claro; como ela mesma diz: “eu capino quintal, planto roça de arroz”. Mas, também acredito que posso fazer muito mais que isso. Imbuída disso. Acorda todo dia cinco horas da manhã, realiza serviços domésticos em casa, se arruma e junto com a filha caminham 40 minutos em direção a Escola Estadual Calunga II. A menina para estudar e Maria Helena para lecionar os dois turnos. Após o regresso toma banho no córrego, pois ainda não tem água encanada em casa. A rotina se repete dia após dia.
Com um brilho no olhar diz que faz questão de ser sempre a primeira a chegar à sala de aula. “Não quero que meus alunos me esperem. Quero sempre ser um exemplo para eles”. Por ser uma Kalunga; (detalhe: com K e não com C. “O povo tem mania de colocar o C, mas somos com K. Afinal somos coisa grande!”) ela parece que falta adivinhar o que os estudantes precisam.
“Tem noites que nem durmo direito. Fico pensando em um jeito de passar o conteúdo da melhor forma para que eles entendam”. O sorriso de satisfação é franco. Mas, não consegue esconder preocupações como a de não ter um curso superior.
Ela desabafa neste texto:

Do que adianta ser livre e viver acorrentada ao passado?
Do que adianta ter pernas, se não pode andar, ter braços e não poder voar?
Do que adianta ter sonhos e pagar por eles?
Do que adianta querer e não conseguir?
Do que adianta lhe dar asas e cortá-la novamente?
Do que adianta amar o próximo se me ensinam a odiá-lo?
Do que adianta ter leis, se não nos defendem?
Do que adianta ter cultura, se não posso preservá-la?
Do que adianta buscar, se não tem aonde ir, ou não sei ir?
Do que adianta nadar e morrer na praia?
Do que adianta sorrir, se meu coração chora?
Do que adianta os sonhos, se não posso realizá-los?
Do que me adianta querer ser alguém na vida, se a vida não deixa ser alguém?
Do que adianta ter tantas coisas no mundo, se não podemos tê-las também?
Do que adianta estudar, se não posso ter curso superior?
Do que adianta querer dar um futuro melhor para os meus filhos, se não posso dar?
É a vida de quem mora em um quilombo é assim:
Sonhar, sonhar, sonhar.
Querer, querer e querer.
Lutar, lutar e lutar.
Quem sabe um dia vencer.

Maria Helena Kalunga já venceu! Pois, rompeu e ainda continua rompendo preconceitos. Ela vence a cada dia desconstruindo um mundo de submissão enraizada em seu inconsciente. Ela descende escravos sim! Só que hoje; caminha firme para escrever uma história vitoriosa. Você pode me perguntar: como tirou esta conclusão. Digo a você caro leitor. Esta conclusão eu absorvi: do abraço caloroso de despedida, acompanhado do olhar iluminado e da fala firme que me disse: “Eu vou conseguir!”



* Kalunga é o nome da comunidade remanescente de quilombo situada no Estado de Goiás, desde o período colonial, nos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás. A comunidade ocupa uma área que se constitui numa das maiores comunidades remanescentes de escravos do país. Refugiados na serra da Contenda tornaram-se livres, resistindo de perseguições e ofensivas por parte dos senhores de engenho, capitães-do-mato e bandeirantes. Fica há 600 km de Goiânia-GO e há 330 km de Brasília-DF.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Fé e tradição na folia do Divino Espírito Santo


“Salve o divino Espírito Santo. Salve o divino Espírito Santo!” Este foi o canto ecoado pelos foliões na chegada à casa do imperador em Porangatu, no norte de Goiás. Os foliões giraram com a bandeira do Divino por 5 dias, fazendas, sítios e residências de Bonópolis, Santa Tereza e Porangatu. Por onde passaram demonstraram fé e gratidão às bênçãos recebidas.


“Eu nem iria participar desta folia do Moreira cheguei aqui com uma dor na perna e pedi ao Espírito Santo que aliviasse a minha dor e ela desapareceu. Deu até para dançar um chorado”, sorridente disse o folião José de Barros Garção.

Zé Garção começou a participar dos giros de folia na região de Porangatu ainda criança. Hoje além de ser imperador, também é o embaixador desta tradição milenar. “É um orgulho, pois nem todo mundo sabe cantar e em cada pouso é uma história. Tem muito verso que é improvisado na hora, então eu só tenho que agradecer esse dom que Deus me deu”, complementou.

O símbolo da Festa do Divino é a mandala de fogo com a pomba branca ao centro. A pomba significa o próprio Divino Espírito Santo (Mt. 3.16) e a mandala de fogo o momento que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, a Pentecostes (AT 2, 4.6). A cor da festa é a branca e a vermelha, a branca significa a paz, o altíssimo e a pomba que pousou sobre Jesus e a vermelha o sangue de Jesus, o Espírito Santo, as labaredas de fogo.

Para não fugir a tradição, a 17ª folia do Moreira foi bem caracterizada. A casa estava repleta de balões, bandeirolas nas cores: branca e vermelha. Inclusive o altar e a mesa de refeições. Cerca de 200 pessoas prestigiaram a chegada da bandeira. Além de comida farta para alimentar o corpo, os fiéis também tiveram a oportunidade de alimentar a alma, durante as cantorias e a reza do bendito.

Segundo o imperador da folia Raimundo Moreira de Araújo a sensação é que à medida que os anos vão passando, a fé vai se fortalecendo. “Ser devoto ao Divino Espírito Santo é o mesmo que ser devoto a Deus. Pois sou católico desde criança, então para mim também é um orgulho muito grande ser responsável por toda essa festa”.

O imperador disse ainda que se preocupa com o futuro deste folclore tão importante para a nossa sociedade, principalmente, pela falta de adesão dos jovens. Este ano, Raimundo Moreira teve que ir atrás de foliões de Talismã e de Alvorada no Tocantins e também em São Miguel do Araguaia para manter a tradição do giro da folia. “Antigamente, tinha muito mais jovens na folia. É por isso que tinha muito mais foliões. Hoje não, os jovens querem mais é ir para as baladas”, complementou.

Na opinião da aposentada Ilta Dias Rodrigues a tradição da folia do Divino Espírito Santo um dia vai acabar. O que para ela é uma pena, pois foi criada acompanhando os giros da folia. E, mesmo hoje com 68 anos sempre que fica sabendo de uma folia faz questão de prestigiar. “Eu acho bonita a chegada dos foliões, o bendito, a saída da folia de uma casa. Para mim a folia é toda bonita”.

Dona Ilta Rodrigues disse ainda que já foi agraciada pelo divino Espírito Santo: “eu tenho uma filha, que só vivia doente. Aí eu fiz uma promessa para o divino e graças a Deus ela sarou e nunca mais teve problema”. Com o olhar cheio de lágrimas, a aposentada explica que o mais importante é ter fé.

História

A festividade do Divino Espírito Santo tem origem na Alemanha durante a dinastia dos Othons e destinava-se a criar uma instituição, que, na forma de um banco, formado de esmolas, acudisse os pobres nos anos de penúria. E como os invocantes eram reis os festejos conservaram os aspectos de realeza.

Na França, a festa foi difundida. A folia do Divino, assimilada rapidamente, foi chamada “Folias do Bispo Inocente”, realizada anualmente em São Martinho, de Tours.

Em Portugal, no século XIII, a devoção ao Divino Espírito Santo transforma em festa pela Rainha Dona Isabel de Aragão, esposa do Rei Dom Diniz, grande protetora dos humildes e da religião católica apostólica romana.

A introdução da festa do Divino Espírito Santo, no Brasil Foi introduzida na Bahia em 1765 pelos ilhéus portugueses, na Matriz de Santo Antônio do Além do Carmo. Havia grandes folias, repastos em público e soltavam-se os presos.

Os festejos começam após a quaresma com a saída da bandeira do Divino. Trata-se de uma bandeira de pano vermelho, no qual está bordada uma pombinha branca, sustentada por um mastro de dois metros aproximadamente em cuja ponta figura outra pombinha branca, ornada de flores. Da ponta caem fitas coloridas, geralmente doadas como pagamento de promessas.

Praticamente todos os Córregos de Porangatu estão degradados


A água que nasce e corre em direção ao riacho e que depois desemboca no ribeirão tem encontrado pelo caminho: lixo, esgoto e descaso. Esse é o retrato de, praticamente, todas as nascentes na parte urbana de Porangatu. Além das pesquisas que confirmam isso, as histórias contadas pelos ribeirinhos são de dar dó.

A aposentada, Maria Rosa de Souza, mora no setor Garavel há 30 anos. Antigamente o córrego próximo da sua residência era limpo, bonito e agradável. “Os meninos banhavam, a gente lavava roupa, vasilhas. Eu mesma já lavei roupas nesse córrego. Agora; não tem jeito minha filha, só tem sujeira. Até esgoto escorre para lá”.

A sensação que a aposentada diz ter é de morar ao lado de uma fossa, pois o cheiro que o córrego exala é insuportável. Na época da chuva os problemas se intensificam. “É terrível, pois aumenta o mau cheiro. Desce muita sujeira pelas enxurradas”, completa.

No setor Jardim Brasília a situação é preocupante. Vários córregos estão sendo aterrados e segundo os moradores são restos de construções jogados pela própria prefeitura da cidade.

A dona de casa, Almerinda Veloso Rosa, acha essa ação muito errada, justamente porque incentiva outras pessoas a fazerem o mesmo. “Ali joga tudo quanto é lixo, é galinha, é cachorro quando morre, o povo acha que ali é o cemitério deles. O perigo é que depois vem a meninada e banha naquela água podre.”, complementa.

Almerinda Veloso Rosa diz que se não cuidar do córrego, ele irá morrer. A dona de casa vê essa degradação com muita tristeza, afinal quando chegou ao local 20 anos atrás o cenário era de muito verde, água límpida e abundante. “Aqui era totalmente diferente, muito mais preservado!”

Nem os córregos da parte história de Porangatu escapam da degradação do homem. Desde o poço do milagre até as nascentes que cortam a rua Dunga não estão mais preservados. Existem casas construídas tão próximas que é um desacato evidente a lei de proteção ambiental.

A lei das APPs (Áreas de Preservação Permanente) exige respeito aos mananciais de água. Se for construir próximo a esses locais é preciso respeitar uma distância de 30 metros, para o curso d’ água com menos de dez metros de largura. E, ao redor de nascente ou olho d’ água, ainda que intermitente só pode construir algo com o raio mínimo de 50 metros, de tal forma que proteja, em cada caso, a bacia hidrográfica contribuinte.

A costureira, Rosalina de Souza Caldeira, é vizinha do córrego da rua Dunga há 10 anos. Segundo ela a cada ano a impressão é que ele fica ainda mais sujo. “Ah, é desmantelo do povo. Eles jogam lixo, não tem um pingo de conscientização. Isso aí era para ser bonito. Bem arrumadinho”.

De acordo com a costureira, mesmo com toda a maldade da população ela acha que o riacho não vai secar. “Ele não seca não. Na hora que começa as águas ele fica bonito. Um dó não poder tomar banho. Eu mesma, não tenho coragem, porque a água é poluída”, explica.

Denúncias

A indignação de ver a situação caótica dos riachos é tanta, que levaram alguns moradores fazerem denúncias no Ministério Público de Porangatu. Este é o caso do pintor, Oésio Bezerra da Silva, que com mais 6 amigos apresentaram filmagens mostrando a degradação de nascentes, no órgão jurídico.

De acordo com Oésio Bezerra da Silva as denúncias foram feitas em 2008. “O Dr. Wilson Nunes Lucio ficou de tomar providências dentro de 15 dias. Aí passou esse prazo e a gente voltou lá, e tinham mapeado o local. Mas, acho que está a Deus dará, ou seja, do mesmo jeito”.

Segundo o pintor é muito triste ver como tudo está acabando e ninguém fazendo nada para reverter o quadro. Morador de Porangatu há 40 anos, Oésio Bezerra da Silva conhece bem a região. Por isso, afirma que córregos como o Areião, Tremedeira, Azulão e o Ribeirão estão chegando ao fim.

“Inclusive, aqui na rua Santo Antônio era a cabeceira da nascente que está sendo depredada. E, descendo a rua 23 encontra-se lá a cabeceira do córrego Azulão que também está sendo depredado. É um local que a gente banhava, pescava e inclusive trazia peixe para casa”, ele explica.

Na opinião de Oésio Bezerra da Silva ainda existe solução. A primeira é conscientizar todos de que a água é fonte de vida. É preciso ter cuidado com as nascentes, inclusive dentro das cidades. Só assim, teremos credibilidade para cobrar do pessoal que vive na zona rural.

Procuramos o Dr. Wilson Nunes Lucio para dar explicações sobre as denúncias que foram feitas no Ministério Público. Só que até o fechamento desta reportagem ele não tinha nos respondido.

Pesquisadora da UEG faz um alerta

A professora do curso de Geografia da UEG, Lucimar Marques da Costa Garção, já desenvolveu projeto de extensão juntamente com seus alunos nos principais córregos de Porangatu. O objetivo era limpar, revitalizar e conscientizar os ribeirinhos sobre a importância de se preservar as nascentes.

“Uma vez a gente fez a limpeza de um córrego e à medida que a gente ia limpando, retirando o lixo, a água ia surgindo. Foi uma maravilha! Quando a gente limpa e quando a gente cuida, a água volta a passar com toda a qualidade, que é preciso”, ela explica.

Na opinião da professora, infelizmente, a lei das APPs não é respeitada dentro da cidade de Porangatu. Pois, o que impera é a lei paternalista do poder municipal, onde eles acabam deixando as pessoas comprarem lotes, talvez por serem mais baratos em áreas próximas aos córregos. “O certo seria o poder público criar loteamentos em áreas próprias e retirar a população das áreas ribeirinhas. A gente percebe que o problema maior seria mesmo o paternalismo da lei. É difícil, quando esse tipo de conceito passa a frente das questões ambientais, das leis maiores”, complementou.

Lucimar Marques da Costa Garção disse ainda; que quem irá pagar o preço da nossa falta de conscientização ambiental será os nossos filhos e netos. “Pois, os próprios ribeirinhos pedem para aterrar os córregos, argumentando que o local só serve para juntar lixo e mosquito da dengue. Só que a maioria da população não entende que aquele fio de água que corre naquele córrego menor irá unir a outras nascentes até formar um córrego maior”, enfatizou.

O resultado de todo esse descaso com os córregos pode gerar em um futuro bem próximo a diminuição do volume de água do Ribeirão Funil e do Canabrava. Os dois principais rios, que abastecem os mais de 40 mil habitantes de Porangatu.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O cavalo é especial para muitos da APAE


O brilho no olhar e a alegria no semblante do garoto Thiago deixa evidente a satisfação que ele tem quando está em cima do cavalo. Quem o vê com essa auto-estima tão elevada, percebe que ali do alto do seu imaginário ele até esquece os momentos que pessoas preconceituosas o nivelaram para baixo. Thiago nos dá uma lição: de que somos todos iguais, independente das diferenças.
Thiago faz a equoterapia uma vez por semana. Acompanhado da fisioterapeuta e da pedagoga faz um tratamento complementar de apoio a reabilitação física e mental. “Eu já acostumei com o animal. Gosto muito de andar de cavalo”, disse Thiago Siqueira Pereira.

O garoto de 7 anos faz equoterapia desde o início do projeto, dia 9 de agosto de 2010. Segundo a fisioterapeuta, Rosemeire Trevisan, ele melhorou muito o equilíbrio e principalmente a coordenação motora.

Ao andar, o cavalo faz com que a pessoa que o monta execute, mesmo que involuntariamente, movimentos tridimensionais horizontais (direita, esquerda, frente e trás) e verticais (para cima e para baixo). Após 30 minutos de exercício, o paciente terá executado de 1.800 a 2.200 deslocamentos, que atuam diretamente sobre o seu sistema nervoso central, aquele responsável pelas noções de equilíbrio, distância e lateralidade. Ou seja, o simples andar do animal faz dele uma máquina terapêutica capaz de garantir ao deficiente uma capacidade motora que não possuía e, assim, restituir-lhe, pelo menos em parte, as funções atrofiadas pelo comportamento físico, sem é claro esquecer o prazer que o contato com o cavalo proporciona à pessoa portadora de deficiência, tornando a terapia interessante e motivadora.

Além do Thiago são mais 39 pessoas atendidas pela APAE, no projeto de equoterapia. Os pacientes têm apresentado tantas melhoras que surpreendeu até mesmo a fisioterapeuta. “Eu trabalho há 18 anos com fisioterapia e tenho conhecimento de vários métodos diferentes e essa terapia me surpreendeu muito. A gente conseguiu resultados rápidos com esses alunos”.

O primeiro passo da terapia é a aproximação do aluno com o animal, para que seja adquirida a confiança. Para que assim possam ser desenvolvidos outros trabalhos como a alfabetização. Durante a equitação, o pedagogo aproveita que os alunos estão com a atenção redobrada e ensina novas lições.

Segundo a pedagoga Nilva Batista Ribeiro Silva é trabalhado o alfabeto, as cores, a lateralidade, a leitura, a linguagem, a identificação dos sinais de trânsito. “Eles não sentem forçados a fazer as atividades, por isso fazem tudo com prazer. Não sentem que estão sendo alfabetizados e que estão estudando”.

A pedagoga disse ainda que se sente realizada com o trabalho desenvolvido na APAE. “É muito gratificante. Pois aqui a gente vê o resultado do trabalho da gente. O melhor salário que a gente recebe é a satisfação do nosso cliente, pois o nosso aluno é o nosso cliente. E, a maior recompensa é ver o resultado positivo”, complementou.

O projeto
A equoterapia é um sonho antigo da APAI, que se tornou realidade graças à parceria da Fundação Itaú na implantação do projeto. Hoje a fisioterapeuta, os professores e os guias que levam os cavalos são pagos pela prefeitura municipal e pelo estado. O apoio para as despesas com os veterinários e a alimentação dos animais é dado pelos pais dos alunos.

Segundo a diretora da APAE Angela Maria Alves Oliveira Carvalho a fila de espera de pessoas com a necessidade de fazer a terapia é enorme. Mas, infelizmente hoje é totalmente inviável pela falta de verba. “Nós poderíamos estar atendendo o dobro de pessoas, mas com esse sol não tem jeito. É muito quente. Nós queremos cobrir a quadra de areia e a partir do momento que conseguirmos isso, poderemos atender o dobro de pessoas.”

A diretora da APAE disse ainda que a entidade está de braços abertos para receber contribuições. “Nós estamos com as portas e com as janelas todas escancaradas para receber a população”, complementou.

História

Os benefícios da interação entre o homem e o cavalo é algo antigo. Já em 377 A.C. Hipócrates, o chamado Pai da Medicina, conceituava a equitação como meio de regeneração da saúde.

No Ocidente moderno, esse tratamento tornou-se importante na recuperação física e psicológica de mutilados da 2ª Guerra Mundial. Em 1952, a dinamarquesa Liz Hartel conquistou a medalha de prata em adestramento nas Olimpíadas de Helsinki, superando as sequelas da poliomielite que contraíra quando criança. A partir daí, surgiram os primeiros centros na Europa e nos Estados Unidos.

Atualmente, o tratamento equoterápico é bastante difundido, contando com mais de cem centros de estudos nos países desenvolvidos, o maior deles é na Itália. A Federação Internacional de Equoterapia, com sede na Inglaterra, conta com mais de trinta filiados.

domingo, 5 de junho de 2011

Saudades de um jovem sonhador


Chego ao meu destino. Tomo fôlego e bato palmas. Em minha direção caminha devagar uma jovem que aparenta 18 anos, de bermuda jeans curta, blusinha clara e olhar cabisbaixo. Pergunto a ela se a mãe do Mayêdo está. Ela responde que sim e me chama para entrar. Apresento-me, ela também e sorrimos juntas; pois temos o mesmo nome: Amanda.

Antes de entrar para a sala de visitas conheço João Gabriel. Ele vem correndo com os pezinhos descalços. Pára e olha todo sorridente; nem a chupeta azul na boca é capaz de esconder sua simpatia. De imediato percebo que é o filho do Mayêdo, pois herdara uma das principais características do pai, o sorriso.

Sento no sofá e aguardo Dona Têcla. Enquanto isso, João Gabriel ronda curioso, aproxima mais e tenta tirar as pedrinhas verdes da minha sandália. O único momento que fica meio retraído é quando ganha de mim um beijo no rosto. Afasta-se, fica vermelho e esconde-se nos braços da mãe.

Amanda teve João Gabriel, há 1 ano e 3 meses. Quando perguntei por quanto tempo namorou Mayêdo, ela foi categórica: “a gente nunca namorou!” O filho foi concebido entre os 4 dias de rodeio na cidade de Novo Planalto (época que o conheceu). A jovem mãe confessou-me que sonhava casar com o Mayêdo e constituir uma família.

Boa tarde! Dona Têcla cumprimenta-me amistosamente.

Como está essa força? Pergunto dando-lhe um abraço.

Vamos tentando levar a vida, minha filha. A saudade é demais. Mesmo a gente tendo a certeza de que a morte é inevitável, não é fácil. Quando ela bate na porta da gente é difícil encará-la de frente. É doído demais. Mas, se Deus quis assim é assim que tenho que aceitar.

O descanso eterno de Mayêdo Araújo Fagundes (23 anos), filho de Dona Têcla, aconteceu no dia 05 de maio, por volta das 9hs da manhã. Ele vinha conduzindo um palio pela BR 153, no perímetro próximo a cidade de Mara Rosa quando tentou uma ultrapassagem e bateu de frente com uma escánia que vinha no sentido contrário. No veículo; o tio dele, Paulo Fagundes, estava no banco da frente como passageiro. Hoje ele está bem, se recuperando de uma fratura exposta que teve no braço esquerdo.

A viagem dos dois foi feita para uma cobertura jornalística em várias cidades da região norte pelo Gazeta Norte Sul. Só, que infelizmente resultou em uma tragédia. Fatalidade que não convém mais buscar culpados. Afinal, a própria família buscou o conforto na bíblia, mais precisamente no versículo 14 do livro de Jô.

“Todos somos fracos desde o nascimento; nossa vida é curta e muito agitada. O ser - humano é como uma flor que se abre e logo murcha; como uma sombra ele passa e desaparece. Nada somos então porque nos dá atenção e quem sou eu para que me leves ao tribunal, o ser - humano que é impuro nunca produz nada que seja puro. Tu já marcaste quantos meses e dia cada um vai viver; isso está resolvido e ninguém pode mudar (...)”

Ananda, irmã do Mayêdo foi quem buscou na bíblia essas palavras de alívio tanto para ela, quanto para a mãe. A relação dos dois irmãos, segundo Dona Têcla é uma lembrança que será eterna. “Era o meu maior presente ver a união dos dois. Ele tinha muito orgulho da irmã, só a chamava de minha neguinha”. Com os olhos marejados complementa: “É assim minha filha, Deus dá, mas ele também tira!”

A dor de quem perde um ente querido é imensa! Ananias, pai do Mayedo, tenta recompor a vida devagarzinho, até conseguiu uma licença de alguns dias da policia civil onde trabalha. Mas, os afazeres da roça não têm para quem deixar, por isso acorda cedo para cuidar do gado. Enquanto isso, Dona Têcla fica com o coração na mão. “Ele está muito ruim, ainda mais porque tem diabetes. Ele guarda muito o sentimento dentro dele”, completou.

Sobre os dois irmãos de Mayêdo, ambos formados em direito, a obrigação já os chamaram. Dhonatan está em Gurupi executando os serviços do IBGE e a Ananda comemora a aprovação na OAB e estuda para concursos.

O Mayêdo em casa sempre foi muito tranquilo, gostava de dormir e assistir televisão. Jovem, vaidoso e com um espírito alegre saia com freqüência e sempre estava rodeado de amigos. Ele era bastante comunicativo e gentil, principalmente, com as mulheres. Quando criança era travesso, mas a mãe afirma: “nunca foi de maltratar as professoras. Era diferente dos dois irmãos, pois não era tão estudioso e por isso, sempre levava umas bombinhas”, sorri.

“Ultimamente Mayêdo tinha mudado; dizia que ia dar bom exemplo para o filho e para a sociedade. Determinado, fez um curso de perícia ambiental em Brasília e estava fazendo o curso de gestão ambiental, em Porangatu” afirmou a mãe; logo em seguida soltou um suspiro.

Como colega de trabalho, mesmo convivendo por apenas 2 meses, posso assegurar que a alegria era a marca registrada do Mayêdo. Por incrível que pareça, a função dele era exatamente a de registrar. Fotos que vão ficar na memória e na história, onde a função ele exerceu de maneira brilhante, melhorando várias reportagens. A intenção; ele confessou um dia desses atrás “quero ajudar a melhorar a vida dessa gente pobre, sem saúde, sem saneamento básico...” A contribuição dele já foi dada!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Início

O fim pode ser doce ou amargo. Pode ser a navalha que corta até sangrar como também um grito de puro êxtase dado após uma conquista. A vida é assim cheia de fins. Fim das estações. De uma gestação. O final do namoro, do noivado, do casamento é regado de choro e até desespero. Como recomeçar? Mas, existe o oposto: a alegria do réveillon. Coincidências ou não um novo recomeço.

Fim....

domingo, 10 de abril de 2011

Irmandade Cereana


O expediente de mais uma sexta-feira chega ao fim. Eurípedes, animado, fecha a porta e despede-se de sua secretária. Uma semana produtiva, pois, os serviços e despachos que a Secretaria de Transportes de Porangatu necessitavam foram feitos. Retornar ao serviço só se o prefeito Trajano o solicitasse.

Ao chegar a casa, Eurípedes, beija a esposa e corre para o telefone. O programa de fim de semana já estava todo arquitetado, só faltava a confirmação dos companheiros. De longe, ela o ouve falar que cada um deveria levar um litro de cachaça.

- Meu bem pega a garrafa térmica pra mim. Ah, por favor, não esquece aquela vara que gosto tanto.

- Sim, mas você volta quando? - Conceição pergunta ressabiada.

- Volto domingo.

- Não esqueça que você trabalha na segunda, hein?!

- Tudo bem. – Responde com um sorriso largo.

Depois de uns 20 minutos Eurípedes estava pronto. Afoito, despede-se da mulher e segue para mais uma pescaria no Rio do Ouro. Quando chegaram ao local a lua já estava pronta para espiá-los. E, antes mesmo de armar as barracas todos começaram a beber. No cardápio, pinga com guaraná.

Depois de algumas horas, todos já estavam embriagados. Eurípedes, paralisado no chão, pede ajuda para um dos companheiros levá-lo até à margem do rio.

- Me ajuda! Quero tomar um banho.

O colega levanta-o. Como dois pêndulos caminham alguns metros. Eurípedes se joga na água escura e barrenta. Após o mergulho, não tem se quer forças para retirar a roupa do corpo. Ainda molhado e quase se arrastando entre os galhos da beira do rio deitou-se em um banco de madeira, improvisado, olhou para as estrelas e depois de um tempo começou a pensar sobre sua vida. Um filme passa pela mente, enquanto lágrimas escorregam por seu rosto. “Por que não consigo me controlar meu Deus? Há tempos bebo sem parar. A bebida já desgraçou tanto a vida de minha família. Meu irmão já faleceu, por causa de uma briga no bar (...) Até hoje meu pai foi o único que teve opinião mesmo e conseguiu parar de beber. Que destino o senhor reserva para mim; será que não terei forças? Será que nunca vou conseguir ficar longe do álcool?”

Depois de alguns meses, Eurípedes seguiu sua rotina na secretaria junto com os serviços prestados na Igreja. “Sempre quis ser ministro da eucaristia, mas depois de divorciado vi esse sonho acabar, pois a igreja católica não aceitaria. Abri mão de um desejo para ser feliz no amor, ao lado de minha companheira”.

O casal se conheceu ainda na adolescência onde foram namorados. Entretanto, Conceição se apaixonou por outra pessoa, se casou e mudou-se para Brasília. Eurípedes continuou em Porangatu casou-se e teve a filha Sirlei. Alguns anos depois o destino uniria novamente o dois. Ela perdeu o marido de forma trágica, após beber em um bar, o esposo se envolveu em uma briga e partiu desta para uma melhor. Depois do acontecido Conceição volta a Porangatu e reencontra Eurípedes, agora, divorciado.
Sobre os serviços da igreja, Eurípedes sai aos fins de semana com o amigo João do Milagre para juntos pregarem a palavra de Deus. Os dois caminham com o lampião nas mãos para clarear as ruas da cidade. Mesmo sendo secretário Eurípedes concilia bem sua função de rezar para os enfermos até o dia que o álcool começou a atrapalhar. Com um copo de 51 na mão teve de negar um chamado para realizar uma celebração. Não pode ir, porque estava alcoolizado. Neste momento, não conteve as lágrimas. “Senhor, daí me força para nunca mais levantar um copo de bebida na vida”.

A partir deste momento uma metamorfose começa na vida de Eurípedes. Deixar de beber era a meta. Para isso, busca na família o incentivo para os novos desafios. Toda vez que olhasse para Sheila, sua segunda filha tão pequena e frágil ficaria mais forte. Um anjo, na ajuda contra o vício.

No dia 20 de abril de 1983, João do Milagre convida Eurípedes para ser treinador do time de futebol do Cerea – Centro de Recuperação de Alcoólatras. “Fui embuido daquela vaidade de exercer mais um cargo, mas nem imaginava que estava sendo enganado. Na verdade o convite era para uma reunião do Cerea. Eu iria assistir uma dessas reuniões tradicionais que acontece toda quarta-feira, às 20 horas”.

Neste dia, o atleta José da Silva deu um testemunho de vida que emocionou todos os presentes. Ele tinha sido por muitos anos um alcoólatra de sarjeta. Sua fala fez reflexões tão profundas em Eurípedes que na próxima semana ele estava novamente na entidade por conta própria. “Eu sabia que se ele tinha conseguido parar de beber eu também poderia conseguir”.

Mais do que nunca Eurípedes estava convicto que naquele lugar ele encontraria a força necessária para recomeçar sua vida. Já deixara de ser secretário, agora era representante de produtos para supermercados. Reconstruindo a casa, os sonhos e mais ainda, uma nova missão de vida: Trabalhar para ajudar a diretoria do Cerea.
Neste momento, encontra o que ele mesmo chama de soberania psicológica. As marcas físicas também aparecem: gastrite, e uma lesão no esôfago (...) Mas em cada nova reunião, lições de superação. Alcoólatras dando testemunhos que perderam tudo, mas que conseguiram se reerguer.

Só que abster-se de algo que se gosta não é nada fácil. “O alcoolismo é uma doença eu sei disso. Como também sei que a cerveja é saborosa, que ela dá uma euforia danada”, diz com os olhos quase fechados, eufórico, aumenta o tom da voz.
Talvez por apreciar o sabor da bebida e gostar tanto das sensações de prazer, que ela proporciona, passa por provações. A primeira acontece em uma visita de trabalho a um comerciante da cidade de Santa Tereza. Eurípedes olha para baixo, inunda os olhos e começa a falar.

- Quando vi o colega do comerciante comendo peixe frito e tomando cerveja, me deu uma ansiedade tão grande. Aí, logo em seguida me convidaram para sentar e tomar um pouco. Pedi um copo e no exato momento que foram me servir tive uma visão, tipo um sonho, dos meus irmãos cereanos. Comecei a orar e falei para o rapaz que ele tinha se enganado, não pedi um copo e sim, uma coca. Depois, tive a notícia de que aquele homem que estava bebendo estava todo machucado, pois tinha caído no esgoto.

Eurípedes continua mais firme depois desta provação. Em 1992 se elege presidente do Cerea e fica mais envolvido com a entidade. Depois de alguns anos Eurípedes pede demissão do serviço e com a experiência adquirida como representante comercial resolve montar seu próprio comércio. Em 2004 ele e Conceição inauguram a mercearia Chagas.

Longe da bebida, Eurípedes carrega toda a família para o Cerea. Em cada novo encontro da entidade repassa seus conhecimentos e dá testemunhos de superação. Mas, ele nem imaginava o que estava por vir. No ano de 2006 retorna ao Rio do Ouro e passa por conflitos. “Foi tão torturante para a minha alma”. Dia típico de muito calor em Porangatu, Eurípedes, Conceição e o neto mais velho saem para um acampamento de pescaria. Durante toda a viagem ninguém tinha bebido nada, sua garganta quase fechando, ressecada, estava sufocando-o. Ao chegar olha para a água do rio, mas percebe que estava imprópria para beber. Derrepente tem um flashback e revê a mesma cena de anos atrás, várias pessoas tomando cerveja gelada e comendo peixe frito. “Minha boca encheu de água e comecei a passar mal. Corri para a beira do córrego e bebi aquela água suja. Lavei o rosto, e minha esposa veio me socorrer trazendo um copo de refrigerante. Naquele momento seu olhar me confortou. É por isso que digo: Todo homem precisa de uma companheira”.

Conceição ajuda Eurípedes. Juntos lutam contra o vício do álcool. “Ela veio para somar! Hoje temos uma vida estruturada e uma família feliz.”

Passados 20 anos, Eurípedes continua convicto em ser cereano. Desenvolve trabalhos na coordenação distrital da UNI-Cerea - entidade nacional. Para ele, todo serviço prestado não é nada mais que sua obrigação. “Estou retribuindo o que foi feito por mim. Graças a Deus me tornei uma pessoa muito melhor, deixei de ser alcoólatra para ser um alcoólatra em recuperação. Quero seguir a minha missão para um dia descansar em paz”.

Escritora no Cerea

Quarta-feira, dia 14 de janeiro, às 19 horas começo a pedalar. Pedalo, pedalo e pedalo ate chegar ao prédio do Cerea de Porangatu. Ao chegar, duas coisas me chamaram atenção, o tamanho da estrutura da instituição e a placa com o endereço duplo.

Avisto um senhor com cabelos de algodão. Na porta de entrada está ele, parecendo uma criança solitária sentada em uma cadeira azul, típica do jardim de infância.

- Boa noite. Tire-me uma dúvida, aqui é a rua Jales Ribeiro de Mendonça ou rua Cinco de Março? Pergunto amistosamente.

Ele sorri e diz:

- São dois endereços na placa, mas o que vale mesmo é o primeiro que a senhora falou. Uma homenagem feita ao primeiro presidente da entidade, Jales Ribeiro de Mendonça, um cego que enxergava com os olhos da alma os dramas de muitos alcoólicos.

A implantação do Cerea no município aconteceu no dia 17 de outubro de 1981. Nesta época as reuniões aconteciam na casa do senhor João Albino Fernandes. Com espírito de união, dia após dia foi consolidado o que antes era só um sonho.

O Cerea de Porangatu tornou-se uma instituição séria e respeitada pela sociedade local. Sua sede foi construída por meio de recursos advindos de bingos, rifas, mutirões e doações. Hoje, o prédio é grande e divide espaço no quarteirão com uma creche e um ginásio de esportes.

O anfitrião, seu Orivaldo exibe orgulhoso a camiseta vermelha com o slogan da entidade. Diz que é membro há 11 anos e ocupa o cargo de diretor patrimonial desde 2007. Explica, que não ganha nenhum dinheiro para prestar o serviço, “a gente faz por amor a causa”. Desde que entrou para o Cerea nunca mais bebeu, “essa é minha maior recompensa”. Complementa.

- Sabe o álcool já me judiou demais. Minha vida foi toda mergulhada na cachaça. Comecei com 10 anos e só parei 11 anos atrás, com 62 anos. Perdi muito dinheiro, no tempo que trabalhei para o Estado, encarregado de cuidar de caminhões e máquinas, na construção da estrada do município de Trombas bebia tanto que mais da metade do meu salário ficava com os donos de bares, onde bebia fiado.

- O senhor ficava agressivo quando estava bêbado?

- Não! Isso não, pois graças a Deus sempre fui calmo.

Orivaldo inunda os olhos, abaixa a cabeça quando começa a falar que até já levou seus dois filhos para os bares da vida. Líder da família sendo espelho para o que hoje ele condena como a derrota de todo cidadão. “Sinto-me culpado, pois levei o Erivaldo para beber comigo, quando ele tinha só dez anos, o pior é que eu consegui parar, mas ele não”.

- O senhor já tentou traze-lo para o Cerea?

- Já, mas ele não quis. Disse que vai parar de beber sozinho, quando quiser. Convicto complementou:

- Ele não vai conseguir. Sozinho não.

Quando vai prolongando a conversa e diz que nunca foi um bêbado de calçada e só não foi parar na sarjeta graças a sua esposa Elza.

Cinco senhoras se aproximam. Cinco mulheres que carregam juntas seus dramas pessoais, mulheres simples, mas sábias. Elas buscam o Cerea para fortalecer as raízes de suas almas. Juntas buscam aprender formas de lidar com esposos e filhos embriagados e a mercê de todas as consequências trazidas pelo vício.

O esposo de dona Tereza não vive mais com ela. Mudou-se com outra mulher para Araguaína-TO. A separação aconteceu em 1979, para ela, foi sua redenção depois de tantos sofrimentos. Hoje, Francisco continua mergulhado na bebida mesmo depois de dois derrames sofridos.

Durante a convivência com o ex-marido ela via o amor que sentia pelo pai dos seus três filhos se transformando em sofrimento. “Ele mudava demais quando estava bêbado, tinha outra feição. Oh (...) Meu Deus!”.
Lágrimas jorram pelo seu rosto. Um brilho embaçado pela dor invade a minha alma.

“Minha filha, o que eu passei espero que você nunca passe. Sentia muito medo dele. Ele quebrava tudo. Aflita saia correndo de casa, no meio da madrugada, com meus três filhos ainda pequenos. Trabalhava como lavadeira. Um dia saí cedo para o serviço. Quando voltei para fazer o almoço, ele começou com as ignorâncias. Veio até a cozinha e deu um murro no meu rosto, machucada, ainda tive de terminar a comida para ele.”

- A senhora também bebia?

- Deus me livre! Eu tenho até raiva de quem bebe, por causa do sofrimento que passei. Mas meu filho mais velho bebeu. Começou com 22 anos e ficava como o pai caindo pelo chão.

Foi neste período que ela começou a frequentar o Cerea. “Aí fui pedindo a Deus. Pedia com tanta força. Colocava o nome dele nas intenções de orações daqui e pronto! Como um milagre meu filho parou de beber dez anos atrás, e olha que ele nem pisou aqui”. Mas Tereza pisou pelo filho, foi e continua sendo corpo e alma nas suas intenções para garantir a sobriedade do filho. A fé dessa mulher garantiu que
o sofrimento causado pelo álcool não perpetuasse em sua família.

Ritual

Mais e mais pessoas vão entrando para o salão. Um cartaz fixo na parede afirma: Cerea uma porta aberta para uma vida nova. Pelo menos é o que todos buscam. As pessoas entram e vão assinando o livro ata. Ali firmam o compromisso de não beber por mais 24 horas como também de ser um reprodutor desta filosofia de vida. 27 pessoas se acomodam nos bancos de madeira. Pessoas de diferentes classes sociais, sexo e idade. São 20h15min, a tolerância dos minutos é justificada a todos devido ao horário de verão.

Tudo pronto. O mestre de cerimônia bate o sino e as conversas paralelas cessam. Da tribuna, que tem ao fundo, três bandeiras, a do Brasil ao centro, a de Porangatu a direita e a do Cerea, à esquerda, o senhor ajeita o óculos impunha o microfone e abre os cumprimentos:

- Irmãos cereanos, irmãs cereanas boa noite. Para aqueles que ainda não conhecem essa entidade, o Cerea é onde nos encontramos para falar do problema do alcoolismo. Tudo surgiu em 1971, na cidade de Nova Granada-SP. A entidade foi fundada por Olindo Alves Leite, com mais três companheiros; todos alcoólicos. Essa irmandade se espalhou para o Brasil, em mais de cem cidades. Temos Cerea nos Estados de SP, BA, MG, MT, MS, TO e PR.

Ele segue a fala e enfatiza: “Não somos contra quem bebe, mas sim a favor de quem quer parar de beber”. Para a primeira reflexão da noite chama tio Gaspar, que sobe até a tribuna.

Um senhor de uns 70 anos. Bem afeiçoado abre um sorriso antes mesmo de pegar o microfone. De fala rouca e com o queixo apoiado no pescoço olha fixamente para todos e diz que a sobriedade é importante. A bebida alcoólica tira a saúde, a convivência com a família, o carinho que é preciso dar aos filhos. “Estamos aqui, por que Deus nos concedeu a vida. Por isso, precisamos refletir. A gente precisa pensar no que devemos mudar”.

Todos ficam em pé. Olhos fechados e cabeças baixas. Pensam. Um som instrumental invade os ouvidos. Alguns choram. Minuto acabado. Volta o apresentador e chama os testemunhos. O primeiro coincidentemente é Orivaldo, meu anfitrião. De cabeça baixa sobe o altar com a missão de repassar sua experiência de vida no alcoolismo. Fala acanhada e olhar de superação diz que a bebida alcoólica não é brincadeira, “só serve para atrapalhar a vida da gente”.

Começa uma história: “Uma vez eu ia para uma festa na fazenda e como sabia que lá no mato não ia ter como comprar mais bebidas, quando acabasse, resolvi levar uma sacola cheia de pinga. Fui bebendo pelo caminho e antes mesmo de chegar à festa cai em uma cisterna totalmente embriagado. Tive de dormir no buraco, pois não conseguiria sair de lá. No outro dia cedo às pessoas que passavam pelo local me tiraram”.

O segundo testemunho é de Otávio, senhor de porte grande, costeletas brancas que contrastam com sua pele cor de jambo. Abre seu depoimento com uma fala enfática. A intenção é repartir com convicção, “hoje sou um cidadão, antes eu era um alcoólatra”. Falar de suas atrapalhadas com o álcool diz que demoraria semanas. No seu recorte de informações admite ter dormido ao lado de fogueiras, ter colocado a esposa para dormir fora de casa e dormir sentado no vaso com as calças arriadas (...). “Certa vez fiz algo que me deixou muito envergonhado. Cheguei ao colégio onde trabalho, até hoje, totalmente bêbado liguei todas as luzes e deitei na calçada para descansar. Mas peguei no sono e só acordei de manhã com três crianças perto de mim. Perguntei o que estavam fazendo ali e elas me responderam que eu estava bêbado e que deveria abrir o portão para entrarem”.

Otávio começou a beber no dia 21 de janeiro de 1956 e parou no dia 20 de julho de 1992, agora, sim, diz sentir-se um vitorioso. Não cai mais, não sou mau exemplo. Pelo contrário, deixa claro, a todos na reunião do Cerea que está pronto para ajudar outras pessoas. Com os braços abertos exemplifica seu apoio e conclui sua fala.

O terceiro e último testemunho da noite é de Paulo Sérgio. Ele segue para a tribuna com um caminhar impaciente. Franzino, nem aparenta ter 42 anos. Desde os 18 sua vida foi perambular de bar em bar. Bebendo vorazmente. Não constituiu família, não aprendeu uma profissão, nunca quis fazer nada diferente a não ser beber. Mas quando tentou parar percebeu o quanto era difícil.

“Quantas vezes eu quebrei garrafa de pinga e chorando falava que nunca mais iria beber. O pior é que no outro dia estava no bar. Fui me graduando na bebida, de tal forma, que comecei a ver coisas. Via cobras andando no telhado, tentei um suicídio, porque para mim a minha vida não servia mais”.

A família de Paulo já não o convidava para eventos. Ele passou a ser o escárnio social. Era apontado, chutado, expulso e maltratado. Começou a viver em um emaranhado de confusões. Refém de suas limitações. Quando viu que não poderia mais suportar a dor foi até o Cerea pediu ajuda. Ficou sem beber por três anos, mas não das tentações. Caiu novamente e há três meses está sóbrio. “Graças a Deus estou recuperado. Há muito tempo não passava um natal consciente e junto da família”.
O depoimento de Paulo emociona. Algumas pessoas dão o ombro amigo antes mesmo que ele retorne ao seu assento. A agitação toma conta de todos até que Lázaro retoma os comandos da reunião e chama a cereana Laudelina, para ler em alto e bom tom a oração de São Francisco de Assis.

Em coro todos repetem. Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união (...).

Mesmo o Cerea não sendo extensão de uma igreja católica este ato tornou-se tradição, por influência de muitos líderes e seguidores da religião católica. Eles não fazem distinção religiosa, aceitam como membro também pessoas céticas. Porém, admitem que sem Deus, ou seja, uma força maior nenhum cereano seria capaz de recuperar a sobriedade.

No último momento de reflexão Osvaldo da Paixão afirma que os testemunhos são a parte mais importante do encontro. “É para falarmos das amarguras que o álcool fez em nossas vidas. Toda vez que assumo meu problema me torno mais forte.” Para ele não existe nada que faça o alcoólatra parar de beber que não seja a terapia de grupo. A mesma que fazem os membros do AA – Alcoólicos Anônimos (surgido em 1935 nos Estados Unidos atua em muitos países. No Brasil chegou em 1940 e hoje conta com mais de cinco mil grupos formados) além de tantas outras entidades já formadas.

“O alcoolismo é uma doença. Inclusive, é a única que ninguém acredita que está doente. Precisamos acreditar no outro. O nosso papel de cereano é ser samaritano. É pegar na mão, é ajudar um moribundo, porque um dia também fomos ajudados”.
O Cerea é um lugar de transformação, mas para isso é preciso ter coragem para dizer não à primeira dose. Antes do encerramento Osvaldo convida aquelas pessoas que se sentirem chamadas a participar da entidade. “Quem vai ser o primeiro?”

Sobe ao altar Tereza, sua colega, e mais um senhor. Todos juntos fazem o voto de entrada ao Cerea.

Ao ingressar no Centro de Recuperação de Alcoólatras, prometo, com a ajuda de Deus fazer todos os esforços, para abster-me de toda e qualquer bebida alcoólica. Responsável ser ela pela ruína e miséria do meu ser, meu lar e minha pátria. Assim eu prometo.

Fim de expediente filantrópico. Todos se viram para si e voltam para o conforto dos seus lares. Fortificados para os desafios da vida que seus destinos traçados já escreveram. Embriagados de fé e esperança para um novo refazer da caminhada. Dando nova rima aos seus dias.

***

terça-feira, 8 de março de 2011

O amanhã...

Existem dias que acordamos cheios de incertezas, dúvidas e perguntas. O que vai acontecer? Os sábios dizem que o amanhã ainda não nos pertence. Então, por que sofremos por antecipação? Curiosidade? Seria esse o oitavo pecado capital? Mas, cá entre nós, após o crepúsculo é quase impossível não pensar em algo que bate a nossa porta.

Aflição versus insegurança! Briga de titãs no ringue da vida e que o resultado só mesmo Deus para saber. Se as escolhas feitas ao longo da nossa jornada foram às acertadas. O resultado: outras dúvidas. A profissão escolhida na adolescência com tanto amor. Será mesmo a executada? Anos a fio de estudos para quê? Os pedagogos afirmam que conhecimento sempre é aproveitado. Só que em certas situações são estudos que infelizmente serão desperdiçados. Afinal, para sobreviver é preciso adequação.

Por exemplo, uma advogada recém formada que não consegue emprego na área? Certo dia recebe uma proposta para trabalhar como vendedora em uma loja de sapatos. A jovem aceita. Claro, precisa pagar aluguel, supermercado, água, energia, etc e tal. Tudo que ela estudou sobre direito penal, (sua paixão), irá aplicar? Neste aspecto são conhecimentos que vão ficar atrofiados, pelo menos no período em que ela estiver como vendedora de sandálias, tênis, sapatilhas, entre outros itens para os pés.

As dúvidas não param por aí... E, quando os questionamentos não são da ordem profissional e sim da afetiva. Será que amo meu namorado, ou me acostumei com ele? Ou ainda; ele é meramente uma ilusão? Isso está parecendo comigo. Ixi! Às vezes, paro e penso que tudo foi resultado da minha imaginação... Oh, coisa fértil essa que surge na minha cabeça. Acredito que não só na minha, temos mania de idealizar as pessoas, ou ainda dar aquela ajeitadinha, bem típica do brasileiro tão acostumado a moldar as pessoas ao nosso modo.

Antes que chegue o amanhã me despeço de todos crendo que ele será mais lindo que hoje. Que ele não fique tão longe, tão frio e que não venha cheio de surpresas desagradáveis. Venha... sol nascer novamente no meu horizonte, venha renovar as minhas dúvidas.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A sina de um raizeiro

... Pois estas são apenas algumas descobertas.
Que encontramos na vida secreta das plantas
(Stevie Wonder).

Daniel, um senhor de 70 anos, retira as favas; uma, duas, três (...) segue o ritual debulhando todas em uma bacia de alumínio. Como colcha de retalhos enroscada no arame farpado, às favas contorna e dá vida verde a casa do raizeiro. O legume servirá de alimento não só para ele, mas para toda a vizinhança.

Enquanto me aproximo, a cena segue germinando em minha pupila. Sinto um aumento repentino nos batimentos do meu coração. Emoção! Afinal é chegada à hora de compreender a vida deste homem que cultiva: ervas, folhas, raízes (...). Que dos frutos da natureza faz ressurgir a vida.

A casa foi construída nos fundos para dar frente às plantas. Donas do pedaço, elas são diversas: erva-cidreira, pinhão manso, hortelã grosso e fino, arruda (...). Daniel, sempre muito simpático, desta vez me repreende pelos trinta minutos de atraso. “Eh, doninha, dá 11 horas, mas, não dá sete heim?” Logo abre o sorriso e me convida para conhecer melhor sua casa.

O acesso é um pouco íngreme. Para não arriscar um tombo logo na entrada, firmo bem os pés no chão de terra batida. Enquanto isso, Daniel vai me contando que se considera um homem do mato, pois seus bisavôs eram índios. Diz também que cresceu plantando e que hoje sua vida é curar pessoas, claro “primeiro com a benção de Deus e segundo com o uso das plantas”, conclui.

Aguardo-o sentada em um tamborete na varanda e fico observando seu animal de estimação chamado amorzinho, um beija-flor que passeia com muita intimidade por todo o espaço. Daniel chega segurando duas garrafas pet com água e as colocam na cesta de sua bicicleta. Ajusta o cinto na calça de brim marrom e coloca o chapéu de couro, estilo cangaceiro. Traz a capanga e o facão, seus equipamentos de trabalho. Faz o sinal da cruz e diz: “Estou pronto, vamos?”.

Pego minha bicicleta, ele a dele, e seguimos viagem para a fonte de remédios naturais do cerrado. Na traseira um saco de estopa servirá para guardar a matéria-prima. Uma placa de metal com algumas informações e, claro, seu endereço fixado no centro da condução serve de ajuda na divulgação dos seus trabalhos. Um detalhe chama a atenção: o nome da rua é Floresta. Coincidência ou não, parece até uma homenagem feita pelo destino ao morador ilustre.

Logo na primeira subida de uma rua, ele desce e empurra a bicicleta. Depois seguimos para a saída norte de Porangatu (cidade localizada a 420 km de Goiânia, capital de Goiás). No último setor da cidade o Galiléia, um senhor de meia idade sentado no meio-fio da rua estende a mão em sinal de cumprimento para Daniel.

Depois de alguns metros, avistamos alguns homens reciclando papelões. A cada nova pedalada nos aproximamos da paisagem rural cheia de pasto, gado, peões, cavalos e caminhonetes transportando galões de leite. Até os sons se alteram agora; o ritmo a ecoar são dos pássaros que nos acompanham. E, o ar? A sensação é de que ele está cada vez mais puro.

Animado e acostumado com o trajeto, Daniel segue me guiando. Passados dez quilômetros, entramos à esquerda da fazenda São Francisco. O céu azul anil e a beleza do cerrado enchem de alegria os olhos do raizeiro. Enquanto abre a primeira de muitas porteiras me explica que é bom deixar do jeito que encontra para não dar motivos para nenhum fazendeiro reclamar. “Afinal, como diz o ditado, sou eu mesmo que preciso das plantas”, complementa.

Seguindo seus passos, escondo a minha bicicleta junto à dele em uma moita alta de capim. Um boiadeiro passa entre nós conduzindo o gado. O medo que tenho desses animais me faz ficar paralisada. O raizeiro começa a rir e emenda: “Como você é medrosa? Larga de ser boba. Eles não fazem nada, são mansinhos. Eles que tem medo da gente”.

Continuo os passos, porém tentando disfarçar o medo. Adentramos a mata, local que ele conhece como a palma da mão. Aponta para uma árvore:

- Está vendo esta; é avenca, boa para dor no corpo, sequidão de garganta e reumatismo. Caminha um pouco mais em direção a outra árvore.

- É sete-sangria, esta, e ela serve pra vários tipos de doença, nervosismo, depurativo para o sangue e para pressão alta. Tem muita gente que conhece por outros nomes como peidorreira ou sangue-de-cristo.

A mata vai ficando cada vez mais fechada. Empolgado, ele segue me mostrando uma infinidade de plantas medicinais; congonha-de-bugre, alecrim-do-campo, jurubeba, jatobá, vergateiga, pau-santo (…). Verdadeira aula sobre medicina alternativa, pois segue me explicando para o que servem cada uma das ervas ou raízes. “Essa aqui é melhor fazer uso do chá!”, continua.

Daniel apresenta seu habitat. Fala que para conseguir achar as plantas busca sempre a orientação do sol. Pega no caule lascado de uma das árvores e explica que foi um sinal feito por ele para lembrar que no local existem raízes difíceis de ser encontradas. Atravessamos para o outro lado em busca de mais novidades.

- Nossa! Não posso esquecer de pegar para você a casca da curriola, que é o melhor remédio que conheço para curar diabetes. Fala para sua mãe deixar de molho na água e tomar todos os dias.

Próximo da árvore ele me explica que nunca se deve cortar o caule do lado que o sol nasce porque assim a doença aumenta. O correto é cortar do lado que se põe. Assim a doença vai com o sol. No ponto mais alto do cerrado ele fecha os olhos; inspira forte o ar, solta devagar e faz uma declaração de amor a natureza.

- Tão bom esse vento livre. É aqui que sinto o corpo saudoso, alegre (…). O que mais gosto nessa vida é navegar pelo mato, conhecer a natureza! Caduco, da roça que nem eu, criado dentro do serviço pesado, na mata e nos campos. Por isso, quando estou aqui, esqueço de tudo, não sinto fome e nem sede. Aquele que não ama a natureza é sinal que não ama Deus.

MONÓLOGO DO NASCIMENTO

“Meu nome é Daniel da Silva Alvarenga. Nasci dia 28 de 1938. Sou do signo de Aquário, goiano da cidade de Amaruleite. Mas cresci em Cavalcante, (lugar próximo aos Kalugas, uma das maiores comunidade de remanescentes de escravos do Brasil).

Eu vou falar a verdade, lá não é bonito não. Quem me criou foi minha avó Aurora, meu padrinho Zeca e minha tia Joaquina. Com oito anos até cheguei a frequentar a escola. Foi por pouco tempo, pois o meu padrinho me tirou. Ele sempre me disse que homem que é homem tem é que trabalhar, estudar para quê? Nessa época nem tive como fazer nada, só obedecer.

Eu e minha tia não nos dávamos muito bem. Por que ela não me dava respeito, mas queria que eu a respeitasse. Quando eu era pequeno ela me bateu muitas vezes; mas com o passar dos anos fui criando força e ela não conseguia mais me segurar.

No ano de 1956 minha avó morreu. Aí não queria mais ficar quieto, descobri que estavam construindo Brasília e fiquei louco para ir para lá. Consegui uma carona com o caminhoneiro Valdir Rodrigues em um dia muito chuvoso e segui dando nova rota a minha vida.

Segui só com a roupa do corpo. Atoleiros e noites mal dormidas até a região de Chapada dos Veadeiros. Enquanto o caminhão passava por uma revisão na oficina eu aproveitei para passear pela cidade; logo arrumei uma namoradinha e quando voltei. Para minha surpresa Valdir já tinha seguido viagem.

Depois peguei carona até Anápolis e acabei ficando na cidade. Trabalhei como doceiro, vendia dois tabuleiros de doces em troca de um prato de comida. Nas andanças a gente sofre mais aprende muito. Só aprendi a ler e a escrever graças ao trecho. Quem me ensinou foi um professor aposentado, Antônio Botelho para quem trabalhei como peão da sua fazenda.

Na nova capital do país trabalhei muito tempo tirando madeira de dentro dos córregos, com a água praticamente no pescoço. O material serviria para a construção de barracões. Nessa brincadeira, logo percebi que isso não iria dar futuro para mim aí resolvi ir para Belo Horizonte. Eu não tinha cabeça não, ficava um pouco em um lugar depois em outro, sempre na beira da estrada, passando fome, sede, mais ia continuando minha vida”.

AGEMIRO E DOMINGAS

Anos a fio, o maior desejo de Daniel era conhecer os pais. Nem que fosse só por um segundo. Nem que fosse só para a vista alcançar e depois largar. Ele queria guardar na memória a imagem do amor personificado de quem os gerou. E esse desejo doía como um martelar na sua alma, dia e noite.

Quando começa a falar, a voz logo treme. O olhar inunda! Daniel diz que quem conheceu primeiro foi o pai, Agemiro.

- Já tinha o rumo de onde ele estava. Minha avó disse que era de Amaruleite.

Ao se aproximar da casa que acreditava ser a do pai, avistou um homem conversando com um rapaz, ambos sentados na mureta do alpendre. “Meu pai sempre foi bom de prosa”, diz sorridente.

Realmente não era engano, o mesmo homem de camisa azul e calça tipo faroeste que estava no alpendre era realmente o seu pai. Envergonhado, Daniel se aproxima e pede a benção. Depois de alguns meses morando com o pai segue em busca da mãe.

Domingas morava a 36 quilômetros de Porangatu em uma fazenda chamada Capivara. No dia do encontro ela estava sentada descascando mandioca para fazer farinha. A emoção foi grande para os dois.

- Bom dia!
- Quem é o senhor?
- Dona eu vim procurar serviço. A senhora me arruma?
- Mas de onde você vem?

Daniel, em prantos, não aguenta. Ajoelha aos pés da mãe pede a benção e suplica para ela parar de chorar, pois o seu filho estava lá.

AUTODIDATA NO ESTUDO

Nos anos que conviveu com a mãe Domingas, Daniel começou a frequentar a escola das benzeduras e conhecer o mundo das raízes. Seu padrasto Joaquim Teles era o mais famoso raizeiro da região. Tempo que era Deus no céu e ele na terra. Nessa época, raizeiro era homem de prestígio, como diz Daniel. Até porque atendimento médico era como procurar agulha no palheiro. No seu novo lar, sua rotina era conviver com um entra-e-sai de gente buscando a cura de suas doenças. Só que nessa época, ele tinha apenas 18 anos e nem dava tanta bola para isso, confessa.

- Como não estava trabalhando, saia para o mato com meu padrasto. Toda vez a mesma coisa, essa planta é para isso, essa para aquilo. Ele ia me passando as lições.

Daniel conta que o padrasto curou muita gente. Teve uma moça que tinha uma doença no nariz que parecia câncer; tomou remédio feito por ele por seis meses e ficou curada. Além de remédios, ele benzia as pessoas. Um dia o padrasto de Daniel foi benzer um rapaz e fez uma premonição: “Ele disse que o moço iria morrer com 18 anos e o pior é que o rapaz bateu as botas mesmo. O velho sabia!”

Em 1970, Daniel foi para o Pará. Lá, pegou malária e conviveu com muitos doentes. Mesmo assim, não trabalhava ainda com raizadas e sim fazendo cerca de arame nas fazendas. A vida seguia lhe pregando peças. Conhecer Raimundo foi uma delas. Outro raizeiro que, quando ia buscar raízes, sempre o chamava para ir junto. Iam pra Macaúba, cidade depois de Marabá, e passavam até seis dias andando pelo mato. No final das contas, foram mais de quatro anos de convivência.

É até engraçado a vida. Parece que Deus mostra pra gente aonde é que tá a raiz. Eu não conhecia os campos daquela região e como é que eu arrumava o remédio certo?, pergunta-se. Nesse período, Daniel começou a estudar mais sobre o poder da cura através dos remédios naturais, esforço que lhe garantiu o conhecimento sobre certos tipos de doenças que não sabia que existia.

“EU VIA A IMAGEM DELE”

Bater as botas, como diz Daniel, por várias vezes ele quase conseguiu. Até nem sabe o porquê recebe tantas bênçãos de Deus. Começa a enumerar as vezes em que esteve com o pé mais para lá do que para cá. Com o indicador e o dedo médio mostra a quantidade de vezes que foi picado por cobras venenosas. E também: que quase morreu afogado por cinco vezes e por três em derrubadas de árvores para fazer pasto para gado. “São Jorge é meu protetor; uma vez ele me livrou de uma (…). No Pará um homem quase me mata a facadas, sabe por quê? Ciúmes de uma mulher da vida”, conclui.

Mas o pior mesmo foi o que aconteceu em uma manhã de janeiro, em 1970. Agonia doida por causa de Antônia, sua nova paixão, que ia buscar para morar com ele, logo depois que terminasse os serviços que tinha na fazenda onde trabalhava.

A empolgação era tanta que fez Daniel correr mais rápido que os ponteiros do relógio. Antes mesmo do previsto pegou sua bicicleta e saiu alegre, cantarolando. Quando foi atravessar uma ponte, avistou uma rama caída no meio da rua. Tentou desviar o obstáculo, mas um caminhão que vinha atrás não fez o mesmo. Uma enorme poça de sangue brotou no chão.

Dizem que me levaram para o hospital municipal de Tucuruí. Lá fiquei por oito dias sem ver o mundo. Não sabia quando era dia nem quando era noite. Nesse momento Daniel segura a minha mão e leva até a sua cabeça, coloca-a na parte superior do lado direito. Sinto o corte profundo já cicatrizado.

Enquanto ia terminando de me mostrar a cicatriz chegam alguns visitantes; uma mulher morena, um homem alto e uma criança. A criança corre para um tambor enferrujado e pega uma das colheres de pau expostas. O artesanato? É feito pelo raizeiro nas horas vagas.

As visitas são para a nova inquilina. Ela sai de um dos cômodos da casa com os dois filhos um a tira-colo e o outro no ventre. Despede-se de Daniel:

- Tchau. Ah, se o senhor quiser assistir televisão pode pegar lá.
- Você volta hoje? – pergunta Daniel.
- Só amanhã.

- Se você não voltar mando a polícia atrás, viu? Hehehe.

Dirige-se para mim e retoma o assunto do acidente. “O médico passou um remédio controlado, chamado Hidrontal. Eu tinha que tomar ele por uns três anos. Mas, vou falar a verdade, cheguei a tomar esse remédio, só uns dois meses. Sabe, um monte de coisas aconteceram comigo; fiquei sem emprego, sem mulher e sem dinheiro.”

Daniel foi a uma farmácia de Marabá comprar o remédio. Lá encontrou com uma velhinha com o mesmo medicamento na mão. Ela virou para ele e disse que o tomava há doze anos e no dia que faltava ficava louca. Isso assustou o raizeiro de tal forma que foi até o estopim para sua decisão. “Eu vou tomar esse remédio é nuuunca mais!”

Saiu desconsolado, pensando em como solucionar o problema. Descobriu que o jeito era ir atrás de um velho que fazia garrafadas (remédios naturais). Tomou e depois de quatro meses já sentia seu corpo melhor. Terminadas as garrafadas foi atrás da melhor raizeira de Marabá.

- Logo que cheguei lá, ela disse que eu estava precisando muito de um benzimento. Pediu para eu fechar os olhos. Enquanto ela me benzia, eu ia vendo a imagem de Jesus Cristo. Terminada a reza ela perguntou o que eu tinha visto. Sorriu e disse que eu iria ficar bom logo.

SEM UM TOSTÃO, MAS COM SAÚDE

Dia 24 de março de 1993, Daniel volta para Porangatu (GO). Arruma emprego de guarda em uma loja de materiais de construção e reconstrói sua vida. O preço? Várias parcelas a perder de vista para ter a tão sonhada casa própria.

Logo que chegou nem imaginava que em pouco tempo muitas pessoas do local iriam depender dele para a cura de doenças. Tudo começou, quando uma mulher com problemas de infecções no útero foi atrás de Balduíno, irmão de Daniel, para comprar garrafadas. Tranquilo, sentado no sofá de sua casa, Balduíno me conta:

- Meu pai foi o raizeiro, Joaquim Teles, mas não quis nem saber desse ramo. Agora, Daniel, não. Desde moço, não podia ver uma pessoa falando de doença, que ele logo já sabia que tipo de raiz curava. Ainda ficava comparando qual planta fazia mais efeito. Então, quando essa mulher veio aqui, indiquei Daniel.

- Por que as pessoas buscam os raizeiros para a cura de doenças?

- Amanda, eu acho que a pessoa cai num desespero tão grande. Muitas vezes o médico não está resolvendo mais o problema e por isso ele vai procurar outras correntes.

Depois da indicação, Daniel teve que fazer a garrafada para a mulher. Na composição, sucupira, angélica, pé de perdiz, algodãozinho, cainca, jequitibá, mama cadela, sete sangria e generosidade. Só que com a cura desta doença o povo nunca mais o deixou sossegado. Sua rotina até hoje é sair para o mato, fazer remédios e curar pessoas.

- Eu quase não faço mais benzeduras. Pois é difícil um aparecer aqui pedindo para eu benzer. Sabe, para dar certo é preciso que as pessoas tenham fé! Acho que o povo tem mais fé no que vê mesmo, por isso, vem mais atrás de garrafadas e de raízes.

Interrompo a inquilina Lidiane, que prestava atenção na conversa enquanto assistia a uma novela.

- Já viu seu Daniel benzendo? Me conta como foi.

- Vi só uma vez. Ah, para mim é natural, pois fui criada vendo isso. Fui benzida várias vezes. Para dar certo, a pessoa tem que ter fé mesmo como ele disse.

- E sobre as garrafadas?

- Tem muita gente que vem aqui que já gastou muito dinheiro com remédios de farmácia e às vezes uma simples garrafada a pessoa consegue a cura. Eu já tomei remédio feito por ele. Meus filhos já tomaram depurativo para o sangue e a gente curou.

Antes do crepúsculo, proponho que Daniel me leve à casa de pelo menos um dos seus clientes.

Chegamos, é aqui!”, disse o raizeiro. Lá está o senhor de chinelas havaianas, bermuda e camisa listrada assistindo o dia passar debaixo de uma mangueira. João Ribeiro, aposentado de 80 anos, toma uma garrafada para aliviar tonturas e fortalecer os músculos.

- Ah, fia, isso é coisa que aparece por causa da idade mesmo. Mas eu estava rui, viu! Nem tava conseguindo andar direito. Mas tô melhorando, até já andei de bicicleta. Acho que Deus quê é que eu fique mais um pouco aqui na terra.

Despeço-me de todos após mais algumas conversas. O raizeiro olha para mim e pergunta se eu não quero conhecer o relojoeiro Pedro.

- Essa semana fui levar um punhado de avenca para ele aliviar as dores da coluna – completa.

- Vamos sim! – Respondo.

Cinco minutos pedalando. Chegamos. O estabelecimento fica em frente à rodoviária da pacata Porangatu. Pedro, amistosamente, vai logo me contando sem delongas:

- Já tomei tanto trem, para baixar pressão, para melhorar coluna. Lá em casa todo mundo já tomou remédios do Daniel. Meu filho Edson Carlos trabalha até em farmácia, mas já tomou garrafadas para acabar com furúnculos.

- Por que esse hábito de toda a família tomar remédios naturais? (pergunto)

- Ah, remédio da farmácia serve, mas é um preço absurdo. Por isso, na minha casa a gente toma mais esses remédios do mato.

Daniel despede-se e segue a sua sina. Antes, passa o último recado: “A pessoa que não tem saúde, não tem nada. Agora, com saúde e sem um tostão no bolso, tem toda a coisa na vida. A felicidade é a saúde!”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

É preciso romper fronteiras

Há tempos o conceito de analfabeto era não saber ler e escrever. Hoje, o entendimento sobre esta palavra é outro. Para ser considerado analfabeto basta não saber, por exemplo: manusear um celular. Isso mesmo, as pessoas que não conseguem dar a devida funcionalidade aos instrumentos tecnológicos podem ser tachadas de “analfos”.

Ser um analfabeto funcional é não deter conhecimentos específicos em determinada área. Como um balconista de uma farmácia que não sabe diferenciar um analgésico de um antialérgico. Além disso, analfabeto funcional na sociedade em que vivemos é não exercer a cidadania ou mesmo, ter o senso crítico para escolher candidatos em uma eleição. Não exercer de maneira coerente o direito de votar.

Nos dois pontos abordados; não ter conhecimentos específicos como também não deter senso crítico pode ser o resultado de uma histórica dominação de poder feita por latifundiários aos proletariados. Afinal, não é interessante para eles deixar o povo saber distinguir “alho de bugalhos”.

Existe uma solução? Claro! E ela está nos livros. Na busca incessante do conhecimento. Aí sim a população vai conseguir romper as fronteiras que cercam e dividem as pessoas.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Diferenças de atitudes

Acabou o tempo em que namorar significava atos singelos. Como a menina debruçada na janela olhando de rabo de olho para o pretendente. Ele do outro lado da rua todo galanteador ofertava uma margarida apanhada do jardim mais próximo.

Ou em outras situações onde um sorriso maroto refletia a aprovação de uma jovem. O garoto todo tímido ficava o restante do dia feliz a cantarolar. Depois de um mês; o pedido de namoro acontecia. Claro cercado de testemunhas.

O pai carrancudo logo dizia:

- Minha filha é uma menina direita, viu! Nada de travessuras com ela. Se quiser namorá-la vai ter que ser do meu jeito.
- Lógico que ele concordava com tudo; afinal não tinha outra escolha.

É! As pessoas mudaram, os costumes são outros...

Hoje namorar ou ficar, enrolar ou teclar. Enfim, é tudo muito complicado, nem os amantes sabem ao certo o que significa o que eles vivenciam. Imaginem os pais desta geração pós-moderna?

A jovem sai para a balada. Antes, se despede do pai falando que vai azarar legal. O pai pergunta para a filha:

- Minha fiiiilha, já viu se você tem camisinha na bolsa? Afinal, ele quer o melhor para ela e o jeito é se adaptar as novas circunstâncias.

Rapazes então, não conseguem contabilizar o número de namoradas, paqueras e ficantes. Eles ainda têm uma grande aliada, a tal internet. Através da tecnologia conhecem e desconhecem mulheres como num jogo de bilhar.

Depois que inventaram o Facebook, Orkut, MSN... a oferta está realmente cada vez maior que a procura.

O pior é a invasão de privacidade, onde as mais ciumentas ficam tardes inteiras bisbilhotando os scraps deixados por ex-namoradas ou será atuais?

Situações que normalmente o garoto logo explica:
-Ah, isso não passa de recados insignificantes...

Será? Se em décadas atrás; de uma piscadela na janela era possível brotar um amor. Porque não é possível surgir novos relacionamentos conjugais, após um “hehehe” (sorriso) teclado?