domingo, 10 de abril de 2011

Irmandade Cereana


O expediente de mais uma sexta-feira chega ao fim. Eurípedes, animado, fecha a porta e despede-se de sua secretária. Uma semana produtiva, pois, os serviços e despachos que a Secretaria de Transportes de Porangatu necessitavam foram feitos. Retornar ao serviço só se o prefeito Trajano o solicitasse.

Ao chegar a casa, Eurípedes, beija a esposa e corre para o telefone. O programa de fim de semana já estava todo arquitetado, só faltava a confirmação dos companheiros. De longe, ela o ouve falar que cada um deveria levar um litro de cachaça.

- Meu bem pega a garrafa térmica pra mim. Ah, por favor, não esquece aquela vara que gosto tanto.

- Sim, mas você volta quando? - Conceição pergunta ressabiada.

- Volto domingo.

- Não esqueça que você trabalha na segunda, hein?!

- Tudo bem. – Responde com um sorriso largo.

Depois de uns 20 minutos Eurípedes estava pronto. Afoito, despede-se da mulher e segue para mais uma pescaria no Rio do Ouro. Quando chegaram ao local a lua já estava pronta para espiá-los. E, antes mesmo de armar as barracas todos começaram a beber. No cardápio, pinga com guaraná.

Depois de algumas horas, todos já estavam embriagados. Eurípedes, paralisado no chão, pede ajuda para um dos companheiros levá-lo até à margem do rio.

- Me ajuda! Quero tomar um banho.

O colega levanta-o. Como dois pêndulos caminham alguns metros. Eurípedes se joga na água escura e barrenta. Após o mergulho, não tem se quer forças para retirar a roupa do corpo. Ainda molhado e quase se arrastando entre os galhos da beira do rio deitou-se em um banco de madeira, improvisado, olhou para as estrelas e depois de um tempo começou a pensar sobre sua vida. Um filme passa pela mente, enquanto lágrimas escorregam por seu rosto. “Por que não consigo me controlar meu Deus? Há tempos bebo sem parar. A bebida já desgraçou tanto a vida de minha família. Meu irmão já faleceu, por causa de uma briga no bar (...) Até hoje meu pai foi o único que teve opinião mesmo e conseguiu parar de beber. Que destino o senhor reserva para mim; será que não terei forças? Será que nunca vou conseguir ficar longe do álcool?”

Depois de alguns meses, Eurípedes seguiu sua rotina na secretaria junto com os serviços prestados na Igreja. “Sempre quis ser ministro da eucaristia, mas depois de divorciado vi esse sonho acabar, pois a igreja católica não aceitaria. Abri mão de um desejo para ser feliz no amor, ao lado de minha companheira”.

O casal se conheceu ainda na adolescência onde foram namorados. Entretanto, Conceição se apaixonou por outra pessoa, se casou e mudou-se para Brasília. Eurípedes continuou em Porangatu casou-se e teve a filha Sirlei. Alguns anos depois o destino uniria novamente o dois. Ela perdeu o marido de forma trágica, após beber em um bar, o esposo se envolveu em uma briga e partiu desta para uma melhor. Depois do acontecido Conceição volta a Porangatu e reencontra Eurípedes, agora, divorciado.
Sobre os serviços da igreja, Eurípedes sai aos fins de semana com o amigo João do Milagre para juntos pregarem a palavra de Deus. Os dois caminham com o lampião nas mãos para clarear as ruas da cidade. Mesmo sendo secretário Eurípedes concilia bem sua função de rezar para os enfermos até o dia que o álcool começou a atrapalhar. Com um copo de 51 na mão teve de negar um chamado para realizar uma celebração. Não pode ir, porque estava alcoolizado. Neste momento, não conteve as lágrimas. “Senhor, daí me força para nunca mais levantar um copo de bebida na vida”.

A partir deste momento uma metamorfose começa na vida de Eurípedes. Deixar de beber era a meta. Para isso, busca na família o incentivo para os novos desafios. Toda vez que olhasse para Sheila, sua segunda filha tão pequena e frágil ficaria mais forte. Um anjo, na ajuda contra o vício.

No dia 20 de abril de 1983, João do Milagre convida Eurípedes para ser treinador do time de futebol do Cerea – Centro de Recuperação de Alcoólatras. “Fui embuido daquela vaidade de exercer mais um cargo, mas nem imaginava que estava sendo enganado. Na verdade o convite era para uma reunião do Cerea. Eu iria assistir uma dessas reuniões tradicionais que acontece toda quarta-feira, às 20 horas”.

Neste dia, o atleta José da Silva deu um testemunho de vida que emocionou todos os presentes. Ele tinha sido por muitos anos um alcoólatra de sarjeta. Sua fala fez reflexões tão profundas em Eurípedes que na próxima semana ele estava novamente na entidade por conta própria. “Eu sabia que se ele tinha conseguido parar de beber eu também poderia conseguir”.

Mais do que nunca Eurípedes estava convicto que naquele lugar ele encontraria a força necessária para recomeçar sua vida. Já deixara de ser secretário, agora era representante de produtos para supermercados. Reconstruindo a casa, os sonhos e mais ainda, uma nova missão de vida: Trabalhar para ajudar a diretoria do Cerea.
Neste momento, encontra o que ele mesmo chama de soberania psicológica. As marcas físicas também aparecem: gastrite, e uma lesão no esôfago (...) Mas em cada nova reunião, lições de superação. Alcoólatras dando testemunhos que perderam tudo, mas que conseguiram se reerguer.

Só que abster-se de algo que se gosta não é nada fácil. “O alcoolismo é uma doença eu sei disso. Como também sei que a cerveja é saborosa, que ela dá uma euforia danada”, diz com os olhos quase fechados, eufórico, aumenta o tom da voz.
Talvez por apreciar o sabor da bebida e gostar tanto das sensações de prazer, que ela proporciona, passa por provações. A primeira acontece em uma visita de trabalho a um comerciante da cidade de Santa Tereza. Eurípedes olha para baixo, inunda os olhos e começa a falar.

- Quando vi o colega do comerciante comendo peixe frito e tomando cerveja, me deu uma ansiedade tão grande. Aí, logo em seguida me convidaram para sentar e tomar um pouco. Pedi um copo e no exato momento que foram me servir tive uma visão, tipo um sonho, dos meus irmãos cereanos. Comecei a orar e falei para o rapaz que ele tinha se enganado, não pedi um copo e sim, uma coca. Depois, tive a notícia de que aquele homem que estava bebendo estava todo machucado, pois tinha caído no esgoto.

Eurípedes continua mais firme depois desta provação. Em 1992 se elege presidente do Cerea e fica mais envolvido com a entidade. Depois de alguns anos Eurípedes pede demissão do serviço e com a experiência adquirida como representante comercial resolve montar seu próprio comércio. Em 2004 ele e Conceição inauguram a mercearia Chagas.

Longe da bebida, Eurípedes carrega toda a família para o Cerea. Em cada novo encontro da entidade repassa seus conhecimentos e dá testemunhos de superação. Mas, ele nem imaginava o que estava por vir. No ano de 2006 retorna ao Rio do Ouro e passa por conflitos. “Foi tão torturante para a minha alma”. Dia típico de muito calor em Porangatu, Eurípedes, Conceição e o neto mais velho saem para um acampamento de pescaria. Durante toda a viagem ninguém tinha bebido nada, sua garganta quase fechando, ressecada, estava sufocando-o. Ao chegar olha para a água do rio, mas percebe que estava imprópria para beber. Derrepente tem um flashback e revê a mesma cena de anos atrás, várias pessoas tomando cerveja gelada e comendo peixe frito. “Minha boca encheu de água e comecei a passar mal. Corri para a beira do córrego e bebi aquela água suja. Lavei o rosto, e minha esposa veio me socorrer trazendo um copo de refrigerante. Naquele momento seu olhar me confortou. É por isso que digo: Todo homem precisa de uma companheira”.

Conceição ajuda Eurípedes. Juntos lutam contra o vício do álcool. “Ela veio para somar! Hoje temos uma vida estruturada e uma família feliz.”

Passados 20 anos, Eurípedes continua convicto em ser cereano. Desenvolve trabalhos na coordenação distrital da UNI-Cerea - entidade nacional. Para ele, todo serviço prestado não é nada mais que sua obrigação. “Estou retribuindo o que foi feito por mim. Graças a Deus me tornei uma pessoa muito melhor, deixei de ser alcoólatra para ser um alcoólatra em recuperação. Quero seguir a minha missão para um dia descansar em paz”.

Escritora no Cerea

Quarta-feira, dia 14 de janeiro, às 19 horas começo a pedalar. Pedalo, pedalo e pedalo ate chegar ao prédio do Cerea de Porangatu. Ao chegar, duas coisas me chamaram atenção, o tamanho da estrutura da instituição e a placa com o endereço duplo.

Avisto um senhor com cabelos de algodão. Na porta de entrada está ele, parecendo uma criança solitária sentada em uma cadeira azul, típica do jardim de infância.

- Boa noite. Tire-me uma dúvida, aqui é a rua Jales Ribeiro de Mendonça ou rua Cinco de Março? Pergunto amistosamente.

Ele sorri e diz:

- São dois endereços na placa, mas o que vale mesmo é o primeiro que a senhora falou. Uma homenagem feita ao primeiro presidente da entidade, Jales Ribeiro de Mendonça, um cego que enxergava com os olhos da alma os dramas de muitos alcoólicos.

A implantação do Cerea no município aconteceu no dia 17 de outubro de 1981. Nesta época as reuniões aconteciam na casa do senhor João Albino Fernandes. Com espírito de união, dia após dia foi consolidado o que antes era só um sonho.

O Cerea de Porangatu tornou-se uma instituição séria e respeitada pela sociedade local. Sua sede foi construída por meio de recursos advindos de bingos, rifas, mutirões e doações. Hoje, o prédio é grande e divide espaço no quarteirão com uma creche e um ginásio de esportes.

O anfitrião, seu Orivaldo exibe orgulhoso a camiseta vermelha com o slogan da entidade. Diz que é membro há 11 anos e ocupa o cargo de diretor patrimonial desde 2007. Explica, que não ganha nenhum dinheiro para prestar o serviço, “a gente faz por amor a causa”. Desde que entrou para o Cerea nunca mais bebeu, “essa é minha maior recompensa”. Complementa.

- Sabe o álcool já me judiou demais. Minha vida foi toda mergulhada na cachaça. Comecei com 10 anos e só parei 11 anos atrás, com 62 anos. Perdi muito dinheiro, no tempo que trabalhei para o Estado, encarregado de cuidar de caminhões e máquinas, na construção da estrada do município de Trombas bebia tanto que mais da metade do meu salário ficava com os donos de bares, onde bebia fiado.

- O senhor ficava agressivo quando estava bêbado?

- Não! Isso não, pois graças a Deus sempre fui calmo.

Orivaldo inunda os olhos, abaixa a cabeça quando começa a falar que até já levou seus dois filhos para os bares da vida. Líder da família sendo espelho para o que hoje ele condena como a derrota de todo cidadão. “Sinto-me culpado, pois levei o Erivaldo para beber comigo, quando ele tinha só dez anos, o pior é que eu consegui parar, mas ele não”.

- O senhor já tentou traze-lo para o Cerea?

- Já, mas ele não quis. Disse que vai parar de beber sozinho, quando quiser. Convicto complementou:

- Ele não vai conseguir. Sozinho não.

Quando vai prolongando a conversa e diz que nunca foi um bêbado de calçada e só não foi parar na sarjeta graças a sua esposa Elza.

Cinco senhoras se aproximam. Cinco mulheres que carregam juntas seus dramas pessoais, mulheres simples, mas sábias. Elas buscam o Cerea para fortalecer as raízes de suas almas. Juntas buscam aprender formas de lidar com esposos e filhos embriagados e a mercê de todas as consequências trazidas pelo vício.

O esposo de dona Tereza não vive mais com ela. Mudou-se com outra mulher para Araguaína-TO. A separação aconteceu em 1979, para ela, foi sua redenção depois de tantos sofrimentos. Hoje, Francisco continua mergulhado na bebida mesmo depois de dois derrames sofridos.

Durante a convivência com o ex-marido ela via o amor que sentia pelo pai dos seus três filhos se transformando em sofrimento. “Ele mudava demais quando estava bêbado, tinha outra feição. Oh (...) Meu Deus!”.
Lágrimas jorram pelo seu rosto. Um brilho embaçado pela dor invade a minha alma.

“Minha filha, o que eu passei espero que você nunca passe. Sentia muito medo dele. Ele quebrava tudo. Aflita saia correndo de casa, no meio da madrugada, com meus três filhos ainda pequenos. Trabalhava como lavadeira. Um dia saí cedo para o serviço. Quando voltei para fazer o almoço, ele começou com as ignorâncias. Veio até a cozinha e deu um murro no meu rosto, machucada, ainda tive de terminar a comida para ele.”

- A senhora também bebia?

- Deus me livre! Eu tenho até raiva de quem bebe, por causa do sofrimento que passei. Mas meu filho mais velho bebeu. Começou com 22 anos e ficava como o pai caindo pelo chão.

Foi neste período que ela começou a frequentar o Cerea. “Aí fui pedindo a Deus. Pedia com tanta força. Colocava o nome dele nas intenções de orações daqui e pronto! Como um milagre meu filho parou de beber dez anos atrás, e olha que ele nem pisou aqui”. Mas Tereza pisou pelo filho, foi e continua sendo corpo e alma nas suas intenções para garantir a sobriedade do filho. A fé dessa mulher garantiu que
o sofrimento causado pelo álcool não perpetuasse em sua família.

Ritual

Mais e mais pessoas vão entrando para o salão. Um cartaz fixo na parede afirma: Cerea uma porta aberta para uma vida nova. Pelo menos é o que todos buscam. As pessoas entram e vão assinando o livro ata. Ali firmam o compromisso de não beber por mais 24 horas como também de ser um reprodutor desta filosofia de vida. 27 pessoas se acomodam nos bancos de madeira. Pessoas de diferentes classes sociais, sexo e idade. São 20h15min, a tolerância dos minutos é justificada a todos devido ao horário de verão.

Tudo pronto. O mestre de cerimônia bate o sino e as conversas paralelas cessam. Da tribuna, que tem ao fundo, três bandeiras, a do Brasil ao centro, a de Porangatu a direita e a do Cerea, à esquerda, o senhor ajeita o óculos impunha o microfone e abre os cumprimentos:

- Irmãos cereanos, irmãs cereanas boa noite. Para aqueles que ainda não conhecem essa entidade, o Cerea é onde nos encontramos para falar do problema do alcoolismo. Tudo surgiu em 1971, na cidade de Nova Granada-SP. A entidade foi fundada por Olindo Alves Leite, com mais três companheiros; todos alcoólicos. Essa irmandade se espalhou para o Brasil, em mais de cem cidades. Temos Cerea nos Estados de SP, BA, MG, MT, MS, TO e PR.

Ele segue a fala e enfatiza: “Não somos contra quem bebe, mas sim a favor de quem quer parar de beber”. Para a primeira reflexão da noite chama tio Gaspar, que sobe até a tribuna.

Um senhor de uns 70 anos. Bem afeiçoado abre um sorriso antes mesmo de pegar o microfone. De fala rouca e com o queixo apoiado no pescoço olha fixamente para todos e diz que a sobriedade é importante. A bebida alcoólica tira a saúde, a convivência com a família, o carinho que é preciso dar aos filhos. “Estamos aqui, por que Deus nos concedeu a vida. Por isso, precisamos refletir. A gente precisa pensar no que devemos mudar”.

Todos ficam em pé. Olhos fechados e cabeças baixas. Pensam. Um som instrumental invade os ouvidos. Alguns choram. Minuto acabado. Volta o apresentador e chama os testemunhos. O primeiro coincidentemente é Orivaldo, meu anfitrião. De cabeça baixa sobe o altar com a missão de repassar sua experiência de vida no alcoolismo. Fala acanhada e olhar de superação diz que a bebida alcoólica não é brincadeira, “só serve para atrapalhar a vida da gente”.

Começa uma história: “Uma vez eu ia para uma festa na fazenda e como sabia que lá no mato não ia ter como comprar mais bebidas, quando acabasse, resolvi levar uma sacola cheia de pinga. Fui bebendo pelo caminho e antes mesmo de chegar à festa cai em uma cisterna totalmente embriagado. Tive de dormir no buraco, pois não conseguiria sair de lá. No outro dia cedo às pessoas que passavam pelo local me tiraram”.

O segundo testemunho é de Otávio, senhor de porte grande, costeletas brancas que contrastam com sua pele cor de jambo. Abre seu depoimento com uma fala enfática. A intenção é repartir com convicção, “hoje sou um cidadão, antes eu era um alcoólatra”. Falar de suas atrapalhadas com o álcool diz que demoraria semanas. No seu recorte de informações admite ter dormido ao lado de fogueiras, ter colocado a esposa para dormir fora de casa e dormir sentado no vaso com as calças arriadas (...). “Certa vez fiz algo que me deixou muito envergonhado. Cheguei ao colégio onde trabalho, até hoje, totalmente bêbado liguei todas as luzes e deitei na calçada para descansar. Mas peguei no sono e só acordei de manhã com três crianças perto de mim. Perguntei o que estavam fazendo ali e elas me responderam que eu estava bêbado e que deveria abrir o portão para entrarem”.

Otávio começou a beber no dia 21 de janeiro de 1956 e parou no dia 20 de julho de 1992, agora, sim, diz sentir-se um vitorioso. Não cai mais, não sou mau exemplo. Pelo contrário, deixa claro, a todos na reunião do Cerea que está pronto para ajudar outras pessoas. Com os braços abertos exemplifica seu apoio e conclui sua fala.

O terceiro e último testemunho da noite é de Paulo Sérgio. Ele segue para a tribuna com um caminhar impaciente. Franzino, nem aparenta ter 42 anos. Desde os 18 sua vida foi perambular de bar em bar. Bebendo vorazmente. Não constituiu família, não aprendeu uma profissão, nunca quis fazer nada diferente a não ser beber. Mas quando tentou parar percebeu o quanto era difícil.

“Quantas vezes eu quebrei garrafa de pinga e chorando falava que nunca mais iria beber. O pior é que no outro dia estava no bar. Fui me graduando na bebida, de tal forma, que comecei a ver coisas. Via cobras andando no telhado, tentei um suicídio, porque para mim a minha vida não servia mais”.

A família de Paulo já não o convidava para eventos. Ele passou a ser o escárnio social. Era apontado, chutado, expulso e maltratado. Começou a viver em um emaranhado de confusões. Refém de suas limitações. Quando viu que não poderia mais suportar a dor foi até o Cerea pediu ajuda. Ficou sem beber por três anos, mas não das tentações. Caiu novamente e há três meses está sóbrio. “Graças a Deus estou recuperado. Há muito tempo não passava um natal consciente e junto da família”.
O depoimento de Paulo emociona. Algumas pessoas dão o ombro amigo antes mesmo que ele retorne ao seu assento. A agitação toma conta de todos até que Lázaro retoma os comandos da reunião e chama a cereana Laudelina, para ler em alto e bom tom a oração de São Francisco de Assis.

Em coro todos repetem. Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união (...).

Mesmo o Cerea não sendo extensão de uma igreja católica este ato tornou-se tradição, por influência de muitos líderes e seguidores da religião católica. Eles não fazem distinção religiosa, aceitam como membro também pessoas céticas. Porém, admitem que sem Deus, ou seja, uma força maior nenhum cereano seria capaz de recuperar a sobriedade.

No último momento de reflexão Osvaldo da Paixão afirma que os testemunhos são a parte mais importante do encontro. “É para falarmos das amarguras que o álcool fez em nossas vidas. Toda vez que assumo meu problema me torno mais forte.” Para ele não existe nada que faça o alcoólatra parar de beber que não seja a terapia de grupo. A mesma que fazem os membros do AA – Alcoólicos Anônimos (surgido em 1935 nos Estados Unidos atua em muitos países. No Brasil chegou em 1940 e hoje conta com mais de cinco mil grupos formados) além de tantas outras entidades já formadas.

“O alcoolismo é uma doença. Inclusive, é a única que ninguém acredita que está doente. Precisamos acreditar no outro. O nosso papel de cereano é ser samaritano. É pegar na mão, é ajudar um moribundo, porque um dia também fomos ajudados”.
O Cerea é um lugar de transformação, mas para isso é preciso ter coragem para dizer não à primeira dose. Antes do encerramento Osvaldo convida aquelas pessoas que se sentirem chamadas a participar da entidade. “Quem vai ser o primeiro?”

Sobe ao altar Tereza, sua colega, e mais um senhor. Todos juntos fazem o voto de entrada ao Cerea.

Ao ingressar no Centro de Recuperação de Alcoólatras, prometo, com a ajuda de Deus fazer todos os esforços, para abster-me de toda e qualquer bebida alcoólica. Responsável ser ela pela ruína e miséria do meu ser, meu lar e minha pátria. Assim eu prometo.

Fim de expediente filantrópico. Todos se viram para si e voltam para o conforto dos seus lares. Fortificados para os desafios da vida que seus destinos traçados já escreveram. Embriagados de fé e esperança para um novo refazer da caminhada. Dando nova rima aos seus dias.

***

Um comentário:

  1. Amanda, que surpreendente seus relatos. Um texto real, bem redigido e ao ler pude reencontrar pessoas que fizeram parte da minha história, como seu Otávio ele é amigo do meu pai e realmente foi assim sua história de angustias e superações. Estou adorando ler um bom texto e relatos que fazem parte da nossa história porangatuense.
    Abraço...bjos e sucesso sempre!!!

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