sábado, 15 de novembro de 2014

Hoje me vi no filme









A sensação é de atraso. Mesmo assim, ando compassadamente. Porém, os pingos da chuva ainda tímida começa a molhar o meu rosto. Alegre, acelero os passos. Toc toc toc... ao meu lado a bengala de sempre. Olho e percebo o Cine Cultura. Subo os degraus e sigo em direção a sala de projeção. Não erraria, pois conheço bem o local das várias idas à biblioteca do espaço. O burburinho das pessoas conversando nas imediações indica que será uma sessão de deixar qualquer diretor de cinema extasiado.

- Boa tarde! - Diz o recepcionista da Mostra Cinema e Direitos Humanos

- Olá, boa tarde. Começa agora o filme “Hoje eu quero voltar sozinho?”

- Daqui uns 15 minutinhos. Mas, pode entrar. - Responde educadamente

Sigo apalpando as paredes. Escolho com as mãos uma das poltronas para me assentar. Meu coração pulsa firme, pois esse é um dos meus escurinhos preferidos. Logo o mesmo rapaz da recepção traz o equipamento de áudio descrição e me explica fazer para utilizá-lo:

-Já está ligado. Se precisar aumente o volume é aqui. – Diz segurando o meu dedo indicador

O silêncio reina. Sinal que vai começar a sessão. A primeira cena é descrita: uma piscina e dois adolescentes conversando. Leonardo o protagonista é apresentado. Só depois de uns minutos percebo que ele é como eu. A história me invade. Vejo-me em cada detalhe. Situações parecidas como o preconceito sofrido na sala de aula. A dificuldade de conseguir a autonomia da mobilidade. O desejo do primeiro beijo e de me sentir amado. Sem falar das várias brigas que tive com a minha avó, na chácara que morava com ela em Niquelândia, no norte de Goiás. Discussões, pois ela queria me proteger de tudo e de todos.

Cada desdobramento do filme ia me enxergando. O único momento que não me identifiquei foi quando Leonardo se encanta com o colega de classe Gabriel e consequentimente se tornam um casal apaixonado. Eu não tenho preconceito, pelo contrário sei bem o significado dessa palavra, pois sinto na pele e sei o quanto isso dói. A questão é que gosto de mulher, tanto que já decidi que vou morar com a minha namorada o ano que vem. Só que para conseguir isso, terei que superar vários desafios. O principal deles é provar para a minha família que sou auto-suficiente.

Muita gente tem pena de cego. Precisamos de outras coisas, menos disso! O caminho da escuridão percorrido por nós existe vantagens e desvantagens, como tudo na vida. Desvantagem, por exemplo, é ter o desejo de assistir filmes e nem sempre poder, pois nas salas comerciais não existem equipamentos de áudio descrição. Já a principal vantagem é a de nos superarmos a cada dia. A vida para mim e para você é um desafio em cada amanhecer, independente de cegueira. Tem pessoas que pensam que pelo fato deu ter nascido cego é mais fácil. Na realidade não sei o que é pior, nascer cego ou se tornar cego e ter que renascer. No fundo acredito que existem porquês e eu, digo que estou preparado para tudo.

Não é à toa que faço faculdade de Direito. Isso significa três ônibus pra ir e três para voltar. Eu nasci prematuro de seis meses, por isso houve a má formação na minha retina. Esse detalhe não será o impedidor para que eu siga a diante. Voltando a história do filme, o que mais me fez emocionar foi o amor e a aceitação de Gabriel, dito "normal" pelo Leonardo, dito "anormal". Ele não se importou com a deficiência visual. Essa é a maior lição do filme, independente dessa questão de opção sexual.

A sociedade precisa rever conceitos... Deficiência não é doença. Pelo contrário o que temos é o desejo de vencer novas barreiras a cada dia. Antes que me esqueça o meu nome é Cecílio Alves da Silva Neto, tenho 23 anos e o meu maior sonho é ver além do horizonte. Pois enxergar mesmo, eu já enxergo. A visão que tenho não é a proporcionada pelos olhos físicos, mas com os olhos da alma.





terça-feira, 21 de outubro de 2014

Gentilezas...

O mundo é uma escola
A vida é o circo
“Amor: palavra que liberta"
Já dizia o profeta.
(Marisa Monte)


Dorme a Avenida Anhanguera de Goiânia-GO. Enquanto isso, Antônio Barbosa Alves estaciona a minivan e começa a descer: botijão, fogão, estufas, mesas e as obras primas da esposa. Cuidadoso organiza uma a uma. Coloca o avental, ajusta a boina e agradece por mais um dia de trabalho beijando o escapulário. A simpatia do baiano de Torrentina é ímpar. Ela também é insistente com os, que fingem nem ver:
- Bom dia, minha amiga.
- Oi. Bom dia.
- Bom dia Ana, tudo bem?
- Tudo.
- Bom dia.
- Boom dia!
Essa é a chave para o diálogo. Afinal, em frente à padaria em formato de banca passam pedestres apressados... O bacharel em Direito deixou a profissão de glamour. Teve uma loja de cosméticos. Hoje repagina a vida. O sentimento, nos olhos marejados é de gratidão. Até porque, o gentileza, tem uma avenida enorme pela frente para buscar o sustento de casa e realizar o sonho de formar as filhas Patrícia e Cindy. Elas fazem Medicina, na Universidade Federal de Goiás.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O escriba e suas várias facetas


Andar vagaroso, fala pausada, olhar atento e memória infalível características de um homem de várias histórias, faces e desdobramentos. Messias Tavares é muito mais que intelectual é sabedoria em pessoa. Com 91 anos bem vividos viajou o mundo, redescobriu o seu universo particular graças aos ensinamentos bíblicos. Advogou e teve duas paixões arrebatadoras: o livro e a mulher. Hoje, depois de várias leituras de si e dos outros se permite e se cobra. A permissão refere-se à escrita, que o leva a lugares que suas pernas não permitem com a velocidade do seu pensamento. Já as cobranças?! Ah, essas são tantas e que o relógio às vezes aponta um tempo que ele mesmo tem consciência que não volta mais. A única certeza que esse tocantinense arretado tem é que o legado ainda está sendo traçado nas páginas em branco da sua vida. Lições deixadas por ele, que uma sociedade inteira já deve aplaudi-lo.

O amor pela escrita surgiu na mocidade. A profissão se consolidou em 1º de dezembro de 1940, quando junto com o colega Álvaro fundou o jornal “Colegial” na cidade de Pedro Afonso - TO. As notícias eram manuscritas e entregues a 20 assinantes. Verdadeira arte de lapidar as palavras, em um trabalho artesanal e difícil de acreditar em tempos de muita tecnologia e velocidade da informação. Claro que a prensa modernizou o fazer jornalístico da época. Passados cinco anos, o jovem aficionado pela informação mudou-se para Goiânia. Deixou o jornal no comando de Costa Júnior, que passou a nomeá-lo de “A Palavra”. De reportagens, Messias Tavares passou a se dedicar somente a escrita de contos, poemas e pronunciamentos.

Na capital goiana se elegeu vereador por quatro mandatos. E, depois secretário de governo do então Mauro Borges. A primeira candidatura foi em 1950 ficando como suplente. Só em 1955, realizou o sonho de representar cidadãos desassistidos. “Eu gostava da política. Sempre fui muito atento em resolver os problemas das pessoas. Nunca fui de prometer, o que não conseguia cumprir”. Messias sente saudades da tribuna, lugar que mais gostava de estar. “Eu era considerado o melhor orador da Câmara. A dona Maria Quitéria, que redigia as atas das sessões sempre dizia que eu era o melhor”. Desse período, a única coisa que ele não sente saudades é da falta de honestidade dos políticos: “naquele tempo já existia corrupção. Não como é hoje, mas existia”, diz enfático.

A carreira política era conciliada com a da advocacia. Messias advogou por 30 anos, mas o que gostava mesmo era do universo de palanques e planos de governo. O gostar é tamanho, que ao falar sobre o assunto o olhar reluz e o desejo se revela: “se fosse bem mais novo, com uns 80 anos eu me candidataria novamente”. Deixando os sonhos quase impossíveis e indo para os mais palpáveis. O intelectual olha para um de seus livros e pensa alto: “pequizeiros em flor”! Indaguei-o sobre o que esse título remetia - ele sorri um sorriso largo e diz que não vê a hora de pisar na terra, que o viu crescer. “Quero ir para a minha fazenda, que fica a 40 km de Pedro Afonso”.

A Cachoeira, que dá nome à propriedade rural de Messias Tavares é a que ele quer desfrutar. “Eu quero tomar banho lá. Só que vou tomar todo cuidado para não cair. A água da cachoeira é balsâmica e vai me dar muito bem estar”. Prazer que ele deseja buscar para contrapor uma rotina de fisioterapias e atividades físicas. O cuidado com o corpo e a alimentação é para aliviar as dores que pesam em uma idade que teima em avançar. Além disso, o cotidiano dele é tomado por leituras e revisões de livros que ainda serão lançados, como a que está sendo feita no livro de poemas que se chamará “Gotas D’ Alma” ou quem sabe “Manhã de Orfeu”. O título pode até ser ainda uma incógnita. Não o desafio de continuar a escrever, a reescrever e, claro, ler incansavelmente.

Paixões

O livro e a mulher são duas somas, que sempre completaram Messias Tavares. “O livro por ser uma atração de natureza intelectual. Agora a mulher porque naturalmente ela é muito linda. Até o papa Francisco fala bem da mulher: ‘as mulheres são a coisa mais bonita, que Deus fez. A igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade’”, lê em tom enfático a frase do líder religioso.

A mulher, ou melhor, as mulheres exerceram na vida do escritor sentimentos mil. Assume que foi namorador, principalmente, quando tinha 29 anos. “Quando fui à primeira vez a Europa eu tinha uma namorada em cada cidade, que passava”. A primeira paixão dele foi aos 10 anos. Porém, com todo esse repertório casou-se somente uma vez e teve com sua esposa cinco filhos. “Nascemos românticos. Eu particularmente não deixei de ser, a única diferença é que hoje estou bem mais experimentado”, complementa.

Saindo do universo feminino e indo para o mundo teológico... Esse sim preencheu e até hoje instiga Messias, que não se cansa de ler pela “enésima” vez a bíblia e adjacentes. Esse meu encontro com ele foi marcado por uma interrupção. Sim ao adentrar no seu escritório Messias estava relendo a “Suma Teológica – Parte 1 / questões de 1 a 13 – sobre a essência de Deus” de São Tomás de Aquino. Segundo o pesquisador, ele começou a estudar essas questões por causa de discussões com protestantes. O intuito era sempre buscar respostas e poder fundamentar suas discordâncias. “Acho importante que as pessoas leiam a bíblia e aprendam sua doutrina. Sem essas leituras não dá para a pessoa obter a salvação”.

As passagens bíblicas trazem para ele, a certeza de que a unção dos enfermos é o que há de mais lindo e libertador para todos os nossos pecados. Messias Tavares quer viver por muitos anos e traçar uma história de auxílio aqueles, que precisam de uma palavra de salvação. Como o assunto que mais o instiga é a religião ele queria voltar ao tempo e ter 'apenas' 60 anos. “Sabe o que queria fazer? Voltar a Europa e fazer um curso de teologia”, diz. O sonho do escriba era adquirir mais sapiência para poder palestrar pelos quatros cantos do Brasil.


domingo, 27 de julho de 2014

O anjo descansou...



Isolar. Quem nunca sentiu esse desejo?O autismo é fundamentalmente uma forma particular de se situar no mundo e, portanto, de se construir uma realidade para si mesmo. A ausência de linguagem, solilóquios, a auto agressividade, a insensibilidade à dor ou a falta de sensação de perigo são alguns dos sintomas que mostram o isolamento da pessoa em relação ao mundo. A tendência é de bastar-se a si mesmo. Incógnitas... Nesse universo de questionamentos foi que Wander dos Santos Anjos se inseriu.
O caminho percorrido de Wander, ainda durante a faculdade de medicina foi sempre atrelado a essa doença. Rodeado de novos casos, novas dúvidas e mais e mais estudos. Noites inteiras para compreender o que muitas vezes não conseguia. Nem por isso desistiu. O jovem de sorriso largo e cativante se transformou em um experiente neuropediatra de Goiânia, porém não menos simpático. Após 40 anos de profissão ele questionou a si mesmo:
- Será que um dia todo mundo vai ter comportamento autista? Eu sinceramente não sei!
Doutor Wander se tornou referência no assunto. Normalíssimo, pois o amor aos pacientes sempre foi imensurável. Tamanha paixão comprovada em mais de 20 anos trabalhados de graça na Associação Pestalozzi. Ação de amor ao próximo, que transformou o cotidiano de Wander mais leve, mais alegre e mais poético. Quando o conheci fiquei impressionada com a gentileza e com o jeito extrovertido dele ser. Inclusive fui alvo de algumas piadas:
-Pensou que eu era um velhinho rabugento, né!?
Dei um sorriso disfarçado, pois ele leu o meu pensamento. Tinha imaginado sim um médico sério, apressado e muito direto. Só, que ele não era nada disso. Wander sempre vai ser para quem o conheceu, um super homem: jovem, brincalhão, educado e comprometido com a missão de medicar.
Ao longo da sua carreira tiveram casos que o intrigaram e fizeram refletir:
- Puxa vida. Será que eu não errei no diagnóstico de alguns pacientes? Porque a gente sabe que o autista teoricamente não fala, mas tem um monte de autistas que eu atendi que falam.
A jornada percorrida pelo doutor Wander foi de convívio com muitos sofrimentos evidenciados nos rostos de pacientes, mães e pais. Via angústias, medos, aflições... É por isso, que ele pôde compreender a completude do autismo associado, infelizmente, ao preconceito. Wander não tinha os pacientes como os especiais e sim as mães:
- Eu não acho especial a criança. A criança nasceu assim. Ela é assim. Agora a mãe? Se eu pudesse colocaria todas no meu colo, pois elas são espetaculares.
A sensibilidade dele perante essa problemática é uma realidade muito distante da maioria das pessoas. Por ter estado tão perto de tantas mães ele verificou que não só em Goiânia, mas em toda a América Latina, por questões culturais a culpa é sempre da mãe. Quantos ditos pais largaram suas esposas, por não suportar esse obstáculo da vida, que é ter um filho autista? Elas continuaram firmes na jornada, porém muitas vezes sozinhas.
Quando falamos de futuro temos sonhos e expectativas. O doutor Wander no fundo já sabia:
- Muito provavelmente eu não vou assistir nem os próximos poucos anos. Isso é natural. É fisiológico...
A única tristeza no olhar dele, enquanto falava sobre isso era como ficariam suas crianças? O receio dele era justamente, quem o substituiria? Afinal, eram 40 anos dedicados ao tratamento de crianças dentro da Associação Pestalozzi e que segundo ele em muitas situações nenhum outro médico queria trabalhar lá. Por isso, ele ia ficando. Ia ficando... Pois, era humano e estava preparado para o embate. Muitos outros médicos segundo Dr. Wander queria somente trabalhar com crianças bonitinhas, perfeitas...
Emocionado ele disse:
- Quando eu passar dessa para uma melhor, possivelmente: melhor! Vão ter que arrumar outro médico. Pra isso, é triste falar isso, terão que pagar bem. Caso contrário não virá.
Franco, porém otimista completou dizendo que haverá alguém comprometido. Alguém que como ele goste muito da medicina.

Wander é exemplo
Wander é amor
Ele que tem anjo até no sobrenome
Tornou-se anjo
Deus o buscou dia 15 de maio de 2014
Pois, precisava de mais aliados no céu.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Operário se reencontra com as letras em canteiro de obras



Todos nós temos um sonho e buscá-lo é o que nos mantêm vivos. No caso do servente de pedreiro Paulo Castro Silva dos Santos é de conseguir escrever com desenvoltura. Ler ele até lê. Mas, volta e meia tropeça nas palavras. Às vezes passa horas imaginando como escrever certas palavras. Engole acentos ou ainda troca letras, o que infelizmente, lhe gera vários constrangimentos. Paulo nasceu em Caxias, interior do Maranhão. Quando se mudou para Goiânia, no dia 4 de julho de 2011, trouxe na bagagem esperanças de conseguir manter a família lá e aqui retomar os estudos. Ele que teve a alfabetização abortada na 4º série, teve um reencontro com as letras dentro do canteiro de obras, o que muito o orgulha.

“Voltar a estudar para mim foi muito importante, pois eu já sabia ler. Agora era uma confusão na hora de escrever. E, isso era um pesadelo pra mim”, enfatiza o servente. A oportunidade de voltar a estudar surgiu por intermédio do coordenador social da Consciente Construtora, Felipe Inácio Alvarenga, que fez a proposta a Paulo. “Ele pediu para eu juntar uma turma, que a construtora iria arrumar a professora e a sala de aula”, explica. Naquele momento o maranhense buscou forças em um sonho antigo do seu pai. Daí com jeitinho convenceu 7 colegas. “Eu precisava ajudar eles e também dependia deles pra voltar a estudar”, complementa.

Muitas aulas se passaram. Vários pingos nos is e novas lições de vida. Hoje, Paulo Castro Silva dos Santos, continua como servente, sua lida é ajudar pedreiros no reboco de paredes, no cuidado com a limpeza do local. Mas, é só dar 17h que ele se apruma todo, toma um lanche reforçado e se volta para os livros e para os ensinamentos da professora, Leiza. Juntos somatizam. Mãos calejadas, porém firmes na escrita de um novo futuro. “Gosto mais de Português, pois é mais fácil. Matemática é difícil, mas mesmo assim quebro cabeça. Afinal, até pra ir ao supermercado a gente precisa fazer contas. Agora o inglês, noossa ainda bem que a gente mora no Brasil, né!?”, diz sorridente.

A superação dos obstáculos no dia a dia da sala de aula, Paulo Castro Silva dos Santos busca no pedido feito pelo pai. “Meu pai não teve condição de me mandar para a cidade estudar, só que ele tinha um sonho: de que eu terminasse pelo menos o ensino fundamental”. Tempos difíceis vividos na roça, que ficam tão simples se comparado aos vividos atualmente. “O desejo de conseguir algo é que nos motiva!”

Se ele pensasse só no cansaço da lida com o cimento, com os tijolos e com os obstáculos da vida não assistia se quer um dia de aula. Mas, Paulo é como concreto: forte! Operário que vislumbra crescimentos, como os empreendimentos que ajuda a construir. Ele traça nos cadernos novos sonhos, que virão em novas realidades.

domingo, 11 de maio de 2014

Mãe


É tanto amor...
Doçura, garra e entrega!
Abriu mão da própria vida para consolidar a das filhas.

É exemplo para tudo que faço
É sabedoria em forma de gente
Como leonina se fez forte
É mãe, pai e acima de tudo a melhor amiga para todas as horas

Mãe amo-te para todo o sempre....


sexta-feira, 21 de março de 2014

A arte de recriar


É na desilusão que sobra espaço para pensar. Pensamentos muitas vezes escapados pelas mãos, mente e coração. É na queda que ganhamos força para ressurgir. Nem que seja uma subida mínima de um único degrau. É no desemprego que o ganha pão se torna árduo e a criatividade aflora. Assim é para mim, para você e foi para Silvio Di Oliveira.

Jardineiro por 18 anos em um hospital particular de Goiânia, Silvio podou ressentimentos e teve que fazer brotar sorrisos, mesmo após uma demissão. Pai de 4 filhos tão acostumado as flores, teve que colher desespero, angustia e medo por alguns meses. Viu-se desesperado tentando encontrar uma saída.

- Fiquei igual ‘passarim’ sem asa. Desorientado mesmo. Muitas vezes chorava e desabafava com a minha esposa Irani ‘Fui tão honesto e passando por isso’.

Dificuldade, esta da vida, que lança grandes desafios. Silvio encarou o inimigo, ou melhor, o desemprego de frente. Chorou! Caminhou. Bateu em muitas portas. Pediu. Suplicou. Voltou para casa mais um dia de mãos vazias. Em frangalhos dormiu um sono que ele jamais esqueceu:

- Sonhei que estava pintando um girassol e as folhas de um coqueiro me estorvava.

Acordou convicto que a partir daquele dia iria para as ruas pintar quadros. Arte essa que nunca tinha se atrevido, nem mesmo nos tempos da escola primária no município de Formoso.

-A única arte que fazia é a que todo ‘muleque’ faz.

Em 5 anos, foram mais de mil telas vendidas. A inspiração do sonho se concretizava quadro a quadro. Margaridas, violetas, girassóis... Enfim, a natureza recriada por Silvio.

- Na época eu queria vender o quadro com um preço melhor, mas eu não conseguia porque eu era muito fraco, não tinha conhecimento na arte e nem nome pra dizer ‘eu quero tanto’.

O tempo foi passando. Silvio agora é Di Oliveira. Tem um ateliê como todo artista plástico. Autodidata, surpreende pela superação. Não tinha tela. Construía. Pincel quebrava. Pegava vara de pescar e pêlo do rabo de cavalo e fazia o próprio pincel. Tintas acabaram. Lá ia Silvio atrás de açafrão, cinzas... Rotineiramente ele ia mergulhando em uma nova filosofia de vida. Reaproveitar. Recriar. Reciclar!

-Busco tudo na reciclagem. O que não serve mais para os outros e tá jogado na rua serve para eu ganhar dinheiro. Basta eu colocar a mão e fazer transformações.

Silvio Di Oliveira faz arte. Arte de colaborar com o meio ambiente. Arte de impressionar. Arte de tornar lixo em algo belo. Ele segue experimentando: isopor vira resina, aro de bicicleta suporte para a tela, tocos velhos esculturas.

- Esse negócio de reciclar é um dever nosso, nós temos por obrigação cuidar do meio ambiente. Todo mundo. Não é só um não!

A vida é mesmo assim: cheia de obstáculos. Felizes são aqueles que conseguem continuar a caminhada. Sábios são os que encontram na adversidade uma resposta para os problemas. Silvio Di Oliveira encontrou na arte a sensibilidade para se tornar um homem mais forte.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A luz de Maria


Maria, Maria, Maria é sorriso, alma e coração. Jovenzinha arretada se fez mulher na cidade de Porto Nacional, estado do Tocantins. Cigana sensual casou, descasou e casou de novo. Hoje vive a alegria dos 63 anos bem vividos. Companheira inseparável do marido Severino de vida severina.

Moradora do Itatiaia em Goiânia, capital de Goiás, Maria é daquelas pessoas que não passa despercebida. As saídas sempre rápidas são para o supermercado, a feira e as vizinhas. Ela gosta de um dedo de prosa. Muito carinhosa embrulha em papel de presente as palavras: nega, linda, querida... Pessoas como a dona Maria deviam se multiplicar por mil.

As lembranças da infância tornam os olhos dela em fachos de luz. “Oh lugar de fartura. Comia muita melancia. E peixe, então? Adorava os pacus que minha mãe fazia. Ela pescava no rio Tocantins”. Já nessa época dona Maria via muito além do que sua retina registrava. “Eu batia o olho na pessoa e já conhecia a história dela”. “Li muita mão fia. Nunca pedi dinheiro, pois tinha consciência que Deus não ia gostar!”

Hoje no máximo que a leonina faz é escutar as previsões sobre seu signo no rádio. “Às vezes dá certo. Às vezes não!” As premonições ficaram para trás. Trancafiadas a sete chaves, após o pedido de um pastor. Se tornar evangélica trouxe mais paz para seu dia a dia. “Antes, tinha medo de dormir no escuro. De abrir a porta da casa à noite”.

Sabedoria adquirida do sofrimento lapidado dona Maria tem sempre um conselho na ponta da língua. “Olha quando for no centro toma cuidado com os malas. Pois, bolsa chique assim eles levam mesmo. Faz o seguinte: enrola o dinheiro em um papel e coloca no seio. Mas, tem que ser um sutiã firme”. “Anota aí um remédio que toda mulher devia tomar pra evitar cólicas e sem falar o tanto que é bom pro útero – Raiz de algudãozim do campo, de pé de perdiz, um pedacim de barba timão e um de arnica e deixa curtir por 30 dias no vinho muscaté”.

Além de garrafadas, a casa de dona Maria é repleta de curiosidades. Sete espelhos e seis televisores. “Ué eu gosto de assistir jornal e o Severino às vezes quer ver outra coisa”. Duas já não resolveriam? Talvez sim. Mas, no fundo mesmo metade são presentes que ela não quer desfazer. E os espelhos? Nem o tempo é capaz de retirar a vaidade da mulher. Dona Maria é dessas mulheres que se olha no espelho, passa o batom e sorri para si mesma. Não é a toa que tem no cabelo a cor viva da paixão.

P.S: Dona Maria foi encontrar com os anjos hoje, dia 31/08/2015. A saudade do amado que partiu 7 dias atrás, deve ter sido muito grande. Que Deus conserve na nossa memória: "a luz de Maria".