quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O escriba e suas várias facetas


Andar vagaroso, fala pausada, olhar atento e memória infalível características de um homem de várias histórias, faces e desdobramentos. Messias Tavares é muito mais que intelectual é sabedoria em pessoa. Com 91 anos bem vividos viajou o mundo, redescobriu o seu universo particular graças aos ensinamentos bíblicos. Advogou e teve duas paixões arrebatadoras: o livro e a mulher. Hoje, depois de várias leituras de si e dos outros se permite e se cobra. A permissão refere-se à escrita, que o leva a lugares que suas pernas não permitem com a velocidade do seu pensamento. Já as cobranças?! Ah, essas são tantas e que o relógio às vezes aponta um tempo que ele mesmo tem consciência que não volta mais. A única certeza que esse tocantinense arretado tem é que o legado ainda está sendo traçado nas páginas em branco da sua vida. Lições deixadas por ele, que uma sociedade inteira já deve aplaudi-lo.

O amor pela escrita surgiu na mocidade. A profissão se consolidou em 1º de dezembro de 1940, quando junto com o colega Álvaro fundou o jornal “Colegial” na cidade de Pedro Afonso - TO. As notícias eram manuscritas e entregues a 20 assinantes. Verdadeira arte de lapidar as palavras, em um trabalho artesanal e difícil de acreditar em tempos de muita tecnologia e velocidade da informação. Claro que a prensa modernizou o fazer jornalístico da época. Passados cinco anos, o jovem aficionado pela informação mudou-se para Goiânia. Deixou o jornal no comando de Costa Júnior, que passou a nomeá-lo de “A Palavra”. De reportagens, Messias Tavares passou a se dedicar somente a escrita de contos, poemas e pronunciamentos.

Na capital goiana se elegeu vereador por quatro mandatos. E, depois secretário de governo do então Mauro Borges. A primeira candidatura foi em 1950 ficando como suplente. Só em 1955, realizou o sonho de representar cidadãos desassistidos. “Eu gostava da política. Sempre fui muito atento em resolver os problemas das pessoas. Nunca fui de prometer, o que não conseguia cumprir”. Messias sente saudades da tribuna, lugar que mais gostava de estar. “Eu era considerado o melhor orador da Câmara. A dona Maria Quitéria, que redigia as atas das sessões sempre dizia que eu era o melhor”. Desse período, a única coisa que ele não sente saudades é da falta de honestidade dos políticos: “naquele tempo já existia corrupção. Não como é hoje, mas existia”, diz enfático.

A carreira política era conciliada com a da advocacia. Messias advogou por 30 anos, mas o que gostava mesmo era do universo de palanques e planos de governo. O gostar é tamanho, que ao falar sobre o assunto o olhar reluz e o desejo se revela: “se fosse bem mais novo, com uns 80 anos eu me candidataria novamente”. Deixando os sonhos quase impossíveis e indo para os mais palpáveis. O intelectual olha para um de seus livros e pensa alto: “pequizeiros em flor”! Indaguei-o sobre o que esse título remetia - ele sorri um sorriso largo e diz que não vê a hora de pisar na terra, que o viu crescer. “Quero ir para a minha fazenda, que fica a 40 km de Pedro Afonso”.

A Cachoeira, que dá nome à propriedade rural de Messias Tavares é a que ele quer desfrutar. “Eu quero tomar banho lá. Só que vou tomar todo cuidado para não cair. A água da cachoeira é balsâmica e vai me dar muito bem estar”. Prazer que ele deseja buscar para contrapor uma rotina de fisioterapias e atividades físicas. O cuidado com o corpo e a alimentação é para aliviar as dores que pesam em uma idade que teima em avançar. Além disso, o cotidiano dele é tomado por leituras e revisões de livros que ainda serão lançados, como a que está sendo feita no livro de poemas que se chamará “Gotas D’ Alma” ou quem sabe “Manhã de Orfeu”. O título pode até ser ainda uma incógnita. Não o desafio de continuar a escrever, a reescrever e, claro, ler incansavelmente.

Paixões

O livro e a mulher são duas somas, que sempre completaram Messias Tavares. “O livro por ser uma atração de natureza intelectual. Agora a mulher porque naturalmente ela é muito linda. Até o papa Francisco fala bem da mulher: ‘as mulheres são a coisa mais bonita, que Deus fez. A igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade’”, lê em tom enfático a frase do líder religioso.

A mulher, ou melhor, as mulheres exerceram na vida do escritor sentimentos mil. Assume que foi namorador, principalmente, quando tinha 29 anos. “Quando fui à primeira vez a Europa eu tinha uma namorada em cada cidade, que passava”. A primeira paixão dele foi aos 10 anos. Porém, com todo esse repertório casou-se somente uma vez e teve com sua esposa cinco filhos. “Nascemos românticos. Eu particularmente não deixei de ser, a única diferença é que hoje estou bem mais experimentado”, complementa.

Saindo do universo feminino e indo para o mundo teológico... Esse sim preencheu e até hoje instiga Messias, que não se cansa de ler pela “enésima” vez a bíblia e adjacentes. Esse meu encontro com ele foi marcado por uma interrupção. Sim ao adentrar no seu escritório Messias estava relendo a “Suma Teológica – Parte 1 / questões de 1 a 13 – sobre a essência de Deus” de São Tomás de Aquino. Segundo o pesquisador, ele começou a estudar essas questões por causa de discussões com protestantes. O intuito era sempre buscar respostas e poder fundamentar suas discordâncias. “Acho importante que as pessoas leiam a bíblia e aprendam sua doutrina. Sem essas leituras não dá para a pessoa obter a salvação”.

As passagens bíblicas trazem para ele, a certeza de que a unção dos enfermos é o que há de mais lindo e libertador para todos os nossos pecados. Messias Tavares quer viver por muitos anos e traçar uma história de auxílio aqueles, que precisam de uma palavra de salvação. Como o assunto que mais o instiga é a religião ele queria voltar ao tempo e ter 'apenas' 60 anos. “Sabe o que queria fazer? Voltar a Europa e fazer um curso de teologia”, diz. O sonho do escriba era adquirir mais sapiência para poder palestrar pelos quatros cantos do Brasil.


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