quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Fé e tradição na folia do Divino Espírito Santo


“Salve o divino Espírito Santo. Salve o divino Espírito Santo!” Este foi o canto ecoado pelos foliões na chegada à casa do imperador em Porangatu, no norte de Goiás. Os foliões giraram com a bandeira do Divino por 5 dias, fazendas, sítios e residências de Bonópolis, Santa Tereza e Porangatu. Por onde passaram demonstraram fé e gratidão às bênçãos recebidas.


“Eu nem iria participar desta folia do Moreira cheguei aqui com uma dor na perna e pedi ao Espírito Santo que aliviasse a minha dor e ela desapareceu. Deu até para dançar um chorado”, sorridente disse o folião José de Barros Garção.

Zé Garção começou a participar dos giros de folia na região de Porangatu ainda criança. Hoje além de ser imperador, também é o embaixador desta tradição milenar. “É um orgulho, pois nem todo mundo sabe cantar e em cada pouso é uma história. Tem muito verso que é improvisado na hora, então eu só tenho que agradecer esse dom que Deus me deu”, complementou.

O símbolo da Festa do Divino é a mandala de fogo com a pomba branca ao centro. A pomba significa o próprio Divino Espírito Santo (Mt. 3.16) e a mandala de fogo o momento que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, a Pentecostes (AT 2, 4.6). A cor da festa é a branca e a vermelha, a branca significa a paz, o altíssimo e a pomba que pousou sobre Jesus e a vermelha o sangue de Jesus, o Espírito Santo, as labaredas de fogo.

Para não fugir a tradição, a 17ª folia do Moreira foi bem caracterizada. A casa estava repleta de balões, bandeirolas nas cores: branca e vermelha. Inclusive o altar e a mesa de refeições. Cerca de 200 pessoas prestigiaram a chegada da bandeira. Além de comida farta para alimentar o corpo, os fiéis também tiveram a oportunidade de alimentar a alma, durante as cantorias e a reza do bendito.

Segundo o imperador da folia Raimundo Moreira de Araújo a sensação é que à medida que os anos vão passando, a fé vai se fortalecendo. “Ser devoto ao Divino Espírito Santo é o mesmo que ser devoto a Deus. Pois sou católico desde criança, então para mim também é um orgulho muito grande ser responsável por toda essa festa”.

O imperador disse ainda que se preocupa com o futuro deste folclore tão importante para a nossa sociedade, principalmente, pela falta de adesão dos jovens. Este ano, Raimundo Moreira teve que ir atrás de foliões de Talismã e de Alvorada no Tocantins e também em São Miguel do Araguaia para manter a tradição do giro da folia. “Antigamente, tinha muito mais jovens na folia. É por isso que tinha muito mais foliões. Hoje não, os jovens querem mais é ir para as baladas”, complementou.

Na opinião da aposentada Ilta Dias Rodrigues a tradição da folia do Divino Espírito Santo um dia vai acabar. O que para ela é uma pena, pois foi criada acompanhando os giros da folia. E, mesmo hoje com 68 anos sempre que fica sabendo de uma folia faz questão de prestigiar. “Eu acho bonita a chegada dos foliões, o bendito, a saída da folia de uma casa. Para mim a folia é toda bonita”.

Dona Ilta Rodrigues disse ainda que já foi agraciada pelo divino Espírito Santo: “eu tenho uma filha, que só vivia doente. Aí eu fiz uma promessa para o divino e graças a Deus ela sarou e nunca mais teve problema”. Com o olhar cheio de lágrimas, a aposentada explica que o mais importante é ter fé.

História

A festividade do Divino Espírito Santo tem origem na Alemanha durante a dinastia dos Othons e destinava-se a criar uma instituição, que, na forma de um banco, formado de esmolas, acudisse os pobres nos anos de penúria. E como os invocantes eram reis os festejos conservaram os aspectos de realeza.

Na França, a festa foi difundida. A folia do Divino, assimilada rapidamente, foi chamada “Folias do Bispo Inocente”, realizada anualmente em São Martinho, de Tours.

Em Portugal, no século XIII, a devoção ao Divino Espírito Santo transforma em festa pela Rainha Dona Isabel de Aragão, esposa do Rei Dom Diniz, grande protetora dos humildes e da religião católica apostólica romana.

A introdução da festa do Divino Espírito Santo, no Brasil Foi introduzida na Bahia em 1765 pelos ilhéus portugueses, na Matriz de Santo Antônio do Além do Carmo. Havia grandes folias, repastos em público e soltavam-se os presos.

Os festejos começam após a quaresma com a saída da bandeira do Divino. Trata-se de uma bandeira de pano vermelho, no qual está bordada uma pombinha branca, sustentada por um mastro de dois metros aproximadamente em cuja ponta figura outra pombinha branca, ornada de flores. Da ponta caem fitas coloridas, geralmente doadas como pagamento de promessas.

Praticamente todos os Córregos de Porangatu estão degradados


A água que nasce e corre em direção ao riacho e que depois desemboca no ribeirão tem encontrado pelo caminho: lixo, esgoto e descaso. Esse é o retrato de, praticamente, todas as nascentes na parte urbana de Porangatu. Além das pesquisas que confirmam isso, as histórias contadas pelos ribeirinhos são de dar dó.

A aposentada, Maria Rosa de Souza, mora no setor Garavel há 30 anos. Antigamente o córrego próximo da sua residência era limpo, bonito e agradável. “Os meninos banhavam, a gente lavava roupa, vasilhas. Eu mesma já lavei roupas nesse córrego. Agora; não tem jeito minha filha, só tem sujeira. Até esgoto escorre para lá”.

A sensação que a aposentada diz ter é de morar ao lado de uma fossa, pois o cheiro que o córrego exala é insuportável. Na época da chuva os problemas se intensificam. “É terrível, pois aumenta o mau cheiro. Desce muita sujeira pelas enxurradas”, completa.

No setor Jardim Brasília a situação é preocupante. Vários córregos estão sendo aterrados e segundo os moradores são restos de construções jogados pela própria prefeitura da cidade.

A dona de casa, Almerinda Veloso Rosa, acha essa ação muito errada, justamente porque incentiva outras pessoas a fazerem o mesmo. “Ali joga tudo quanto é lixo, é galinha, é cachorro quando morre, o povo acha que ali é o cemitério deles. O perigo é que depois vem a meninada e banha naquela água podre.”, complementa.

Almerinda Veloso Rosa diz que se não cuidar do córrego, ele irá morrer. A dona de casa vê essa degradação com muita tristeza, afinal quando chegou ao local 20 anos atrás o cenário era de muito verde, água límpida e abundante. “Aqui era totalmente diferente, muito mais preservado!”

Nem os córregos da parte história de Porangatu escapam da degradação do homem. Desde o poço do milagre até as nascentes que cortam a rua Dunga não estão mais preservados. Existem casas construídas tão próximas que é um desacato evidente a lei de proteção ambiental.

A lei das APPs (Áreas de Preservação Permanente) exige respeito aos mananciais de água. Se for construir próximo a esses locais é preciso respeitar uma distância de 30 metros, para o curso d’ água com menos de dez metros de largura. E, ao redor de nascente ou olho d’ água, ainda que intermitente só pode construir algo com o raio mínimo de 50 metros, de tal forma que proteja, em cada caso, a bacia hidrográfica contribuinte.

A costureira, Rosalina de Souza Caldeira, é vizinha do córrego da rua Dunga há 10 anos. Segundo ela a cada ano a impressão é que ele fica ainda mais sujo. “Ah, é desmantelo do povo. Eles jogam lixo, não tem um pingo de conscientização. Isso aí era para ser bonito. Bem arrumadinho”.

De acordo com a costureira, mesmo com toda a maldade da população ela acha que o riacho não vai secar. “Ele não seca não. Na hora que começa as águas ele fica bonito. Um dó não poder tomar banho. Eu mesma, não tenho coragem, porque a água é poluída”, explica.

Denúncias

A indignação de ver a situação caótica dos riachos é tanta, que levaram alguns moradores fazerem denúncias no Ministério Público de Porangatu. Este é o caso do pintor, Oésio Bezerra da Silva, que com mais 6 amigos apresentaram filmagens mostrando a degradação de nascentes, no órgão jurídico.

De acordo com Oésio Bezerra da Silva as denúncias foram feitas em 2008. “O Dr. Wilson Nunes Lucio ficou de tomar providências dentro de 15 dias. Aí passou esse prazo e a gente voltou lá, e tinham mapeado o local. Mas, acho que está a Deus dará, ou seja, do mesmo jeito”.

Segundo o pintor é muito triste ver como tudo está acabando e ninguém fazendo nada para reverter o quadro. Morador de Porangatu há 40 anos, Oésio Bezerra da Silva conhece bem a região. Por isso, afirma que córregos como o Areião, Tremedeira, Azulão e o Ribeirão estão chegando ao fim.

“Inclusive, aqui na rua Santo Antônio era a cabeceira da nascente que está sendo depredada. E, descendo a rua 23 encontra-se lá a cabeceira do córrego Azulão que também está sendo depredado. É um local que a gente banhava, pescava e inclusive trazia peixe para casa”, ele explica.

Na opinião de Oésio Bezerra da Silva ainda existe solução. A primeira é conscientizar todos de que a água é fonte de vida. É preciso ter cuidado com as nascentes, inclusive dentro das cidades. Só assim, teremos credibilidade para cobrar do pessoal que vive na zona rural.

Procuramos o Dr. Wilson Nunes Lucio para dar explicações sobre as denúncias que foram feitas no Ministério Público. Só que até o fechamento desta reportagem ele não tinha nos respondido.

Pesquisadora da UEG faz um alerta

A professora do curso de Geografia da UEG, Lucimar Marques da Costa Garção, já desenvolveu projeto de extensão juntamente com seus alunos nos principais córregos de Porangatu. O objetivo era limpar, revitalizar e conscientizar os ribeirinhos sobre a importância de se preservar as nascentes.

“Uma vez a gente fez a limpeza de um córrego e à medida que a gente ia limpando, retirando o lixo, a água ia surgindo. Foi uma maravilha! Quando a gente limpa e quando a gente cuida, a água volta a passar com toda a qualidade, que é preciso”, ela explica.

Na opinião da professora, infelizmente, a lei das APPs não é respeitada dentro da cidade de Porangatu. Pois, o que impera é a lei paternalista do poder municipal, onde eles acabam deixando as pessoas comprarem lotes, talvez por serem mais baratos em áreas próximas aos córregos. “O certo seria o poder público criar loteamentos em áreas próprias e retirar a população das áreas ribeirinhas. A gente percebe que o problema maior seria mesmo o paternalismo da lei. É difícil, quando esse tipo de conceito passa a frente das questões ambientais, das leis maiores”, complementou.

Lucimar Marques da Costa Garção disse ainda; que quem irá pagar o preço da nossa falta de conscientização ambiental será os nossos filhos e netos. “Pois, os próprios ribeirinhos pedem para aterrar os córregos, argumentando que o local só serve para juntar lixo e mosquito da dengue. Só que a maioria da população não entende que aquele fio de água que corre naquele córrego menor irá unir a outras nascentes até formar um córrego maior”, enfatizou.

O resultado de todo esse descaso com os córregos pode gerar em um futuro bem próximo a diminuição do volume de água do Ribeirão Funil e do Canabrava. Os dois principais rios, que abastecem os mais de 40 mil habitantes de Porangatu.