sexta-feira, 21 de março de 2014

A arte de recriar


É na desilusão que sobra espaço para pensar. Pensamentos muitas vezes escapados pelas mãos, mente e coração. É na queda que ganhamos força para ressurgir. Nem que seja uma subida mínima de um único degrau. É no desemprego que o ganha pão se torna árduo e a criatividade aflora. Assim é para mim, para você e foi para Silvio Di Oliveira.

Jardineiro por 18 anos em um hospital particular de Goiânia, Silvio podou ressentimentos e teve que fazer brotar sorrisos, mesmo após uma demissão. Pai de 4 filhos tão acostumado as flores, teve que colher desespero, angustia e medo por alguns meses. Viu-se desesperado tentando encontrar uma saída.

- Fiquei igual ‘passarim’ sem asa. Desorientado mesmo. Muitas vezes chorava e desabafava com a minha esposa Irani ‘Fui tão honesto e passando por isso’.

Dificuldade, esta da vida, que lança grandes desafios. Silvio encarou o inimigo, ou melhor, o desemprego de frente. Chorou! Caminhou. Bateu em muitas portas. Pediu. Suplicou. Voltou para casa mais um dia de mãos vazias. Em frangalhos dormiu um sono que ele jamais esqueceu:

- Sonhei que estava pintando um girassol e as folhas de um coqueiro me estorvava.

Acordou convicto que a partir daquele dia iria para as ruas pintar quadros. Arte essa que nunca tinha se atrevido, nem mesmo nos tempos da escola primária no município de Formoso.

-A única arte que fazia é a que todo ‘muleque’ faz.

Em 5 anos, foram mais de mil telas vendidas. A inspiração do sonho se concretizava quadro a quadro. Margaridas, violetas, girassóis... Enfim, a natureza recriada por Silvio.

- Na época eu queria vender o quadro com um preço melhor, mas eu não conseguia porque eu era muito fraco, não tinha conhecimento na arte e nem nome pra dizer ‘eu quero tanto’.

O tempo foi passando. Silvio agora é Di Oliveira. Tem um ateliê como todo artista plástico. Autodidata, surpreende pela superação. Não tinha tela. Construía. Pincel quebrava. Pegava vara de pescar e pêlo do rabo de cavalo e fazia o próprio pincel. Tintas acabaram. Lá ia Silvio atrás de açafrão, cinzas... Rotineiramente ele ia mergulhando em uma nova filosofia de vida. Reaproveitar. Recriar. Reciclar!

-Busco tudo na reciclagem. O que não serve mais para os outros e tá jogado na rua serve para eu ganhar dinheiro. Basta eu colocar a mão e fazer transformações.

Silvio Di Oliveira faz arte. Arte de colaborar com o meio ambiente. Arte de impressionar. Arte de tornar lixo em algo belo. Ele segue experimentando: isopor vira resina, aro de bicicleta suporte para a tela, tocos velhos esculturas.

- Esse negócio de reciclar é um dever nosso, nós temos por obrigação cuidar do meio ambiente. Todo mundo. Não é só um não!

A vida é mesmo assim: cheia de obstáculos. Felizes são aqueles que conseguem continuar a caminhada. Sábios são os que encontram na adversidade uma resposta para os problemas. Silvio Di Oliveira encontrou na arte a sensibilidade para se tornar um homem mais forte.

14 comentários:

  1. Adorei! Um belo exemplo para todos os amantes de qualquer forma de arte que seja, e ficam presos em amarras impostas pelo mundo.

    ResponderExcluir
  2. Como sempre, um belo texto de Amanda Costa e, mais que isso, uma lição de vida que o artista Silvio nos dá. Parabéns aos dois.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Parabéns pelo texto! Ele revela quem é em sua interação com o artístico.

      Segue um poema para refletir sobre Ser

      Ser por ser
      Ser por Ser

      Nunca será igual a ser por ter
      Muito menos por ser igual a outro ser
      Mas por ser o que deve viver
      Com toda coerência se estabelecer
      Pelas misericórdias os frutos colher
      Sem deixar o coração se envaidecer

      Ser por ser

      Nunca será igual a ser por ter
      A não ser que ter seja da fonte embeber
      Todo o amor de um novo aprender
      Onde O Doador da vida nos ensina a escolher
      Os caminhos do verdadeiro saber
      As verdades que nos ensinam a vencer

      Ser por ser

      Nunca será igual ser por ter
      Mesmo que as circunstâncias no queiram envolver
      Com todo engodo que o mal deseja sempre trazer
      Para tentar nos tirar a paz de um novo amanhecer
      Pois o renovar de um novo dia nos faz beber
      Água pura que emana do trono, fazendo rejuvenescer

      Ser por ser

      Nunca será igual a ser por ter
      Por mais que as necessidades nos levem a receber
      As chamadas de estar no mundo sem se esquecer
      O que somos e para quem somos em nosso dever
      De amar a Deus e ao próximo ao entender
      Que os eleitos pela graça a Cristo sempre vão enaltecer....(DSB)




      Excluir
    2. Fico muito feliz em receber esse elogio. :)

      Excluir
    3. Unknown realmente o Silvio Di Oliveira nos dá uma grande lição. E, é justamente por isso, que não poderia jamais deixar de narrar essa história de vida. ;)

      Excluir
  3. É a necessidade que faz o sapo pular!!! Mas uma vez usando a leveza e um belo exemplo pra nos fazer refletir sobre questões pertinentes à nossa evolução. A incrível capacidade que temos de nos recriar! Obrigado Amanda.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu é que agradeço a leitura, Asdrúbal Tranqueira, e um comentário tão bacana como esse! ;)

      Excluir
  4. É impressionante a capacidade de resistência que nós brasileiros/as desenvolvemos. Resistimos a toda sorte de intempéries, inventando, criando, reinventando e recriando. As portas nunca se fecham o suficiente para nos fazer desistir e esmorecer. Parabéns ao Sílvio pela capacidade de enfrentamento, e parabéns a você, Amanda, pela sensibilidade e pela capacidade descrever e narrar com poesia o que para a maioria das pessoas poderia parecer apenas dureza, que acabaria sendo traduzida por lamentação.

    ResponderExcluir
  5. Tânia Rezende quanta honra ler esse seu comentário... São palavras "mágicas" que me fazem continuar escrevendo, criando e recriando. ;)

    ResponderExcluir
  6. Muito lindo isso.. o texto, a arte, a reciclagem/reutilização, a superação. Parabéns Amanda e obrigado pela partilha dessa estória! Esse seu olhar que 'acha' as coisas que a gente nem sabe que procura e transpõe em jornalismo literário é um primor!
    Achei interessante o lance do sonho do Silvio... a pitada de onirismo lembra que é vida é tão mais mágica que pragmática, assim como as palavras mágicas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. João Damasio eu é que agradeço a leitura e comentário. Quero que saiba que ouvir isso de você é único. É simplismente a chave que me leva a caminhos que nem sei aonde vai dar.... Grande abraço!!!

      Excluir
  7. Amanda quero te agradecer pelas palavras... que me da forças para continuar !! agradeço muito pela oportunidade e pra mim e um prazer ser motivo de comentarios de uma pessoa tao culta e de grande importancia no meio cultural e comunicativo!! pessoas como voce contribuen com o meio artistico e cultural..obrigado pelo incentivo!! abraços

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não precisa agradecer não Silvio Di Oliveira. Pois, compreendo que minha sina é contar boas histórias e a sua história de vida é simplismente fantástica. Abraço!

      Excluir