sábado, 15 de fevereiro de 2014

A luz de Maria


Maria, Maria, Maria é sorriso, alma e coração. Jovenzinha arretada se fez mulher na cidade de Porto Nacional, estado do Tocantins. Cigana sensual casou, descasou e casou de novo. Hoje vive a alegria dos 63 anos bem vividos. Companheira inseparável do marido Severino de vida severina.

Moradora do Itatiaia em Goiânia, capital de Goiás, Maria é daquelas pessoas que não passa despercebida. As saídas sempre rápidas são para o supermercado, a feira e as vizinhas. Ela gosta de um dedo de prosa. Muito carinhosa embrulha em papel de presente as palavras: nega, linda, querida... Pessoas como a dona Maria deviam se multiplicar por mil.

As lembranças da infância tornam os olhos dela em fachos de luz. “Oh lugar de fartura. Comia muita melancia. E peixe, então? Adorava os pacus que minha mãe fazia. Ela pescava no rio Tocantins”. Já nessa época dona Maria via muito além do que sua retina registrava. “Eu batia o olho na pessoa e já conhecia a história dela”. “Li muita mão fia. Nunca pedi dinheiro, pois tinha consciência que Deus não ia gostar!”

Hoje no máximo que a leonina faz é escutar as previsões sobre seu signo no rádio. “Às vezes dá certo. Às vezes não!” As premonições ficaram para trás. Trancafiadas a sete chaves, após o pedido de um pastor. Se tornar evangélica trouxe mais paz para seu dia a dia. “Antes, tinha medo de dormir no escuro. De abrir a porta da casa à noite”.

Sabedoria adquirida do sofrimento lapidado dona Maria tem sempre um conselho na ponta da língua. “Olha quando for no centro toma cuidado com os malas. Pois, bolsa chique assim eles levam mesmo. Faz o seguinte: enrola o dinheiro em um papel e coloca no seio. Mas, tem que ser um sutiã firme”. “Anota aí um remédio que toda mulher devia tomar pra evitar cólicas e sem falar o tanto que é bom pro útero – Raiz de algudãozim do campo, de pé de perdiz, um pedacim de barba timão e um de arnica e deixa curtir por 30 dias no vinho muscaté”.

Além de garrafadas, a casa de dona Maria é repleta de curiosidades. Sete espelhos e seis televisores. “Ué eu gosto de assistir jornal e o Severino às vezes quer ver outra coisa”. Duas já não resolveriam? Talvez sim. Mas, no fundo mesmo metade são presentes que ela não quer desfazer. E os espelhos? Nem o tempo é capaz de retirar a vaidade da mulher. Dona Maria é dessas mulheres que se olha no espelho, passa o batom e sorri para si mesma. Não é a toa que tem no cabelo a cor viva da paixão.

P.S: Dona Maria foi encontrar com os anjos hoje, dia 31/08/2015. A saudade do amado que partiu 7 dias atrás, deve ter sido muito grande. Que Deus conserve na nossa memória: "a luz de Maria".

12 comentários:

  1. Bom texto. Compartilhei como um dos meus prediletos.

    ResponderExcluir
  2. Nossa! Um elogio desses vindo de um escritor como você fico até emocionada. Obrigada. :)

    ResponderExcluir
  3. Amanda, você merece uma super coluna na melhor revista brasileira que ainda nem existe para abarcar o talento, a sensibilidade e a habilidade visíveis neste (e outros) texto(s). Relevante, direto, estiloso e simples.

    ResponderExcluir
  4. João Damasio você me fez chorar!!! Obrigada pelo carinho e incentivo. :)

    ResponderExcluir
  5. Muito triste ! Nossa eterna vizinha a nossa rua nunca será a mesma .

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Realmente o Itatiaia não será o mesmo. Um abraço, Mariana.

      Excluir
  6. Lamentável. Muito triste. Dona Maria era vizinha e amiga da minha avó.... mais de trinta anos se passaram. Meus sentimentos a todos os familiares. 😯😯😯

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Patrícia é triste, porém a Dona Maria deixa um legado muito grande de alegria e amizade.

      Excluir
  7. Pessoa maravilhosa..sempre alegre com um sorisso no rosto. Sentiremos muita falta dela. Texto muito bem escrito parabens Amanda.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A alegria dela estará eternizada no meu coração e espero que no seu também, Mauratte. Obrigada pela leitura do texto!

      Excluir
  8. Todo contexto é gostoso de ouvir, só não dá pra definir qual das duas foi mais ousada: Uma em descrever o fato e a outra em relatar...Parabéns as duas merecidamente....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que lindo! Fico muito emocionada com suas palavras....Mônica, essa é a minha sina: relatar. E, lembro como se fosse hoje, a alegria da Dona Maria contando a sua própria história...devagarzinho em meio a muitos cafés tomados (ela adorava). No dia que entreguei essa narrativa impressa, os olhos dela ficaram marejados e ela disse: "nunca pensei que alguém ia contar a minha história. Me sinto até importante". :)

      Excluir