sábado, 17 de dezembro de 2011

O sonho de continuar mestre


Conhecer pessoas faz parte do meu cotidiano. Descrever, relatar e informar às vezes dói. Às vezes não. Mas, reconheço que contar histórias é sempre uma missão incrível, principalmente, quando me deparo com situações muito adversas da minha. E, quando aprendo com essas vivências é simplesmente fantástico. Em minha recente jornada a comunidade Kalunga* conheci uma jovem diferenciada. Maria Helena é quilombola, mãe e professora que ensina grandes lições.
Com o vigor de uma menina e a sabedoria de uma anciã, ela sonha com dias melhores. Aos 14 anos resolveu que teria que casar, pois essa era a única forma de estudar. Afinal, não existia escola na comunidade e seria bem mais fácil na época convencer o esposo do que seus pais que mulher também tinha direito a educação.
O casamento não deu certo. Mas, rendeu-lhe três lindos presentes: um casal de filhos e um diploma de ensino médio. Morou em Brasília. E, foi justamente na capital do país que resolveu voltar para suas raízes. Aceitou o chamado de ajudar a comunidade Kalunga. A maneira? Ensinar crianças que o ideal não é segurar no cabo da enxada.
Claro; como ela mesma diz: “eu capino quintal, planto roça de arroz”. Mas, também acredito que posso fazer muito mais que isso. Imbuída disso. Acorda todo dia cinco horas da manhã, realiza serviços domésticos em casa, se arruma e junto com a filha caminham 40 minutos em direção a Escola Estadual Calunga II. A menina para estudar e Maria Helena para lecionar os dois turnos. Após o regresso toma banho no córrego, pois ainda não tem água encanada em casa. A rotina se repete dia após dia.
Com um brilho no olhar diz que faz questão de ser sempre a primeira a chegar à sala de aula. “Não quero que meus alunos me esperem. Quero sempre ser um exemplo para eles”. Por ser uma Kalunga; (detalhe: com K e não com C. “O povo tem mania de colocar o C, mas somos com K. Afinal somos coisa grande!”) ela parece que falta adivinhar o que os estudantes precisam.
“Tem noites que nem durmo direito. Fico pensando em um jeito de passar o conteúdo da melhor forma para que eles entendam”. O sorriso de satisfação é franco. Mas, não consegue esconder preocupações como a de não ter um curso superior.
Ela desabafa neste texto:

Do que adianta ser livre e viver acorrentada ao passado?
Do que adianta ter pernas, se não pode andar, ter braços e não poder voar?
Do que adianta ter sonhos e pagar por eles?
Do que adianta querer e não conseguir?
Do que adianta lhe dar asas e cortá-la novamente?
Do que adianta amar o próximo se me ensinam a odiá-lo?
Do que adianta ter leis, se não nos defendem?
Do que adianta ter cultura, se não posso preservá-la?
Do que adianta buscar, se não tem aonde ir, ou não sei ir?
Do que adianta nadar e morrer na praia?
Do que adianta sorrir, se meu coração chora?
Do que adianta os sonhos, se não posso realizá-los?
Do que me adianta querer ser alguém na vida, se a vida não deixa ser alguém?
Do que adianta ter tantas coisas no mundo, se não podemos tê-las também?
Do que adianta estudar, se não posso ter curso superior?
Do que adianta querer dar um futuro melhor para os meus filhos, se não posso dar?
É a vida de quem mora em um quilombo é assim:
Sonhar, sonhar, sonhar.
Querer, querer e querer.
Lutar, lutar e lutar.
Quem sabe um dia vencer.

Maria Helena Kalunga já venceu! Pois, rompeu e ainda continua rompendo preconceitos. Ela vence a cada dia desconstruindo um mundo de submissão enraizada em seu inconsciente. Ela descende escravos sim! Só que hoje; caminha firme para escrever uma história vitoriosa. Você pode me perguntar: como tirou esta conclusão. Digo a você caro leitor. Esta conclusão eu absorvi: do abraço caloroso de despedida, acompanhado do olhar iluminado e da fala firme que me disse: “Eu vou conseguir!”



* Kalunga é o nome da comunidade remanescente de quilombo situada no Estado de Goiás, desde o período colonial, nos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás. A comunidade ocupa uma área que se constitui numa das maiores comunidades remanescentes de escravos do país. Refugiados na serra da Contenda tornaram-se livres, resistindo de perseguições e ofensivas por parte dos senhores de engenho, capitães-do-mato e bandeirantes. Fica há 600 km de Goiânia-GO e há 330 km de Brasília-DF.

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